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Homilia – Missa Crismal 2024

A missa crismal, celebrada na manhã de quinta-feira santa, é um momento de grande significado para o clero, para os fiéis leigos e para toda a Igreja nesta quadra pascal. Esta é uma celebração ímpar em que se procederá à benção dos santos óleos com que serão ungidos os fiéis, nos diversos ritos sacramentais em que irão experimentar a proximidade e a benção de Deus nas várias circunstâncias de vida. Terá ainda lugar um outro gesto que se reveste de particular simbolismo, o da renovação das promessas sacerdotais, em que os presbíteros são convidados a tomar consciência e reforçar os propósitos manifestados no dia da sua ordenação.

No relato do evangelho que escutamos, Jesus surpreende a assembleia reunida na sinagoga de Nazaré com a afirmação: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da escritura que acabais de ouvir». Com estas palavras revela plena consciência de que na sua pessoa se cumpriam as promessas de Deus, assumindo publicamente a sua identidade de Ungido, Messias. O capítulo 4 de S. Lucas, diz que a multidão, após a surpresa inicial, não foi capaz de ver em Jesus senão o filho de José  e quis expulsá-lo. De facto é indispensável o dispor-se a acompanhar Jesus no caminho até à Páscoa, para reconhecer então que aquele que morreu na cruz e ressuscitou ao terceiro dia é verdadeiramente o Messias, o Filho de Deus.

Para nós, sacerdotes, a presença na celebração de hoje significa um avivar da consciência da nossa identidade, um trazer à memória os sonhos e ideais que nos preenchiam no dia da ordenação, um reforçar dos propósitos que então assumimos. Tudo isso acontece neste HOJE em que desejamos que a nossa vida sacerdotal continue a concretizar em atos o que então dissemos por palavras. A passagem do tempo, o cansaço ou a rotina, porventura algumas feridas ou desilusões que fomos acumulando durante o caminho, não podem desviar-nos ou fazer esquecer o essencial do nosso ministério. É tudo isso que aprendemos hoje, mais uma vez, com Jesus.

Em primeiro lugar Jesus reconheceu que em si se realizava a palavra do profeta: «O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me ungiu…». Ao longo do seu ministério, por diversas vezes é mencionada e confirmada a presença e a força do Espírito nas ações de Jesus. A vida do presbítero, desde a sua ordenação é marcada pela ação do mesmo Espírito. Foi ele que nos ungiu, nos acompanha e torna possível esta obra grandiosa: pelas nossas humildes palavras e gestos, Deus continua a falar, abençoar, perdoar e curar o seu povo. Pela humanidade de cada um, Deus continua a passar a salvação que quer conceder ao mundo. Por isso, como Maria, saibamos ser atentos, disponíveis e dóceis à ação do Espírito Santo. Ele é sempre surpreendente, criativo, gerador da novidade de Deus que supera os nossos projetos, capaz de nos levar muito além do que podemos imaginar ou calcular.

O Espírito conferido na unção sacerdotal enviou-nos a anunciar a Boa Nova. A esta luz a vida do sacerdote deve ser encarada como a de um discípulo missionário. Alguém sempre disponível a servir uma Igreja em saída, sem medo do mundo. O ministério do presbítero não pode ser reduzido a um direito próprio, um privilégio ou função exercida em benefício pessoal. Esta visão mundana deve ser superada   pela abertura à ação do Espírito, cultivada através de uma intensa vida espiritual.  É do Espírito que recebemos a fortaleza para superar cansaços e a criatividade para não nos acomodarmos na rotina ou repetição. Ele abre o nosso olhar para compreendermos que foi o Senhor que nos chamou para nos associar à sua missão em favor do seu povo. Este é o antídoto certo para evitar as armadilhas do individualismo, do autoritarismo e da auto-suficiência, que habitualmente acabam por conduzir à frustração e ao vazio.

Jesus identificou-se como o Ungido, enviado a proclamar a redenção aos cativos, a restituir a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos». A sua missão visava destinatários concretos e tinha propósitos bem definidos. Era um anúncio de vida, de esperança, de liberdade e de futuro para tantos que não o imaginariam possível. O nosso mundo continua cheio de gente cativa, presa em situações de vida difíceis e desumanas, de gente incapaz de ver qualquer réstia de luz no seu caminho, de pessoas oprimidas por situações sociais ou contextos políticos que as subjugam. É grande a multidão de homens e mulheres que precisa de uma palavra que liberte. São tantos os que, nestes tempos de incertezas e angústias anseiam um ano de graça, um dia com comida, um mês com trabalho, um tempo de paz, ou pelo menos um minuto de atenção. Um mundo evoluido tecnologicamente, com meios mais sofisticados de produção e de comunicação não tem gerado sociedades mais livres e abertas nem pessoas mais felizes e realizadas, antes mais tristes e esquecidas.

O Evangelho de Jesus Cristo que temos por missão proclamar, continua a ter a mesma força de novidade e  libertação de há dois mil anos. O mundo, a Igreja e cada um de nós precisamos todos de voltar ao evangelho para, a partir dele, construirmos a nossa vida, darmos outro impulso à nossa missão, darmos um rosto novo à Igreja e uma nova esperança ao  mundo. O Evangelho não é um mensagem fora de moda ou de outra época. Nunca como hoje foi necessário para não nos perdermos no caminho.

Esta missa crismal é celebrada num tempo em que a Igreja está envolvida, por convocatória do Papa Francisco, num processo sinodal. O relatório de síntese da Assembleia Geral Ordinária, no ponto relativo ao presbíteros, destaca alguns aspetos de convergência que hoje merecem ser sublinhados e refletidos.

Em primeiro lugar a profunda gratidão aos sacerdotes pelo seu trabalho e dedicação ao serviço do Povo de Deus. Tendo presente as situações difíceis que tantos enfrentam, de solidão, isolamento, doença e outras, como Bispo desta diocese recomendo às comunidades cristãs, como fez a assembleia sinodal, que apoiem os sacerdotes «com a sua oração, a amizade e colaboração». Peço sobretudo uma grande  compreensão pelo facto de que muitos padres têm pesados encargos pastorais, nomeadamente várias paróquias a seu cuidado.

Por outro lado, o contexto do mundo em que vivemos desafia a Igreja a uma profunda renovação. Para que seja possível, é pedida ao presbítero de hoje uma paixão pela missão, e, como aponta o sínodo, «uma atitude  de proximidade às pessoas, de acolhimento e de escuta de todos». Ela supõe um novo  modo de entender a autoridade como um serviço e não como um poder, à imagem do Bom Pastor que esvaziou de si mesmo,  se fez servo e servidor de todos e por todos deu a vida.

Por último, na síntese é proposto que os sacerdotes cultivem um estilo cada vez mais sinodal. Um estilo que promove a corresponsabilidade com os leigos, tendo em conta a realidade concreta das várias comunidades, grupos e organismos eclesiais. Um estilo que valoriza e reforça a comunhão com o Bispo e com os demais presbíteros e a relação com os outros ministérios e carismas. Desta forma, o exercício do ministério sacerdotal, contando com as capacidades e os limites de cada pessoa, terá condições para ser mais fecundo, alegre e inspirador para os demais batizados. Uma Igreja mais sinodal pressupõe um ministério sacerdotal mais sinodal.

Na sinagoga de Nazaré estavam fixos em Jesus os olhos de toda a assembleia. Ele proclama que a palavra do profeta se cumpria naquele momento. Mas aquela palavra cumpriu-se sobretudo ao longo do resto da sua vida até à cruz. Ele é, por isso, segundo o Apocalipse, «a testemunha fiel, o primogénito dos mortos», o que «fez de nós um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai». Como discípulos deste Jesus, Servo Fiel e Bom Pastor que deu a vida pelas suas ovelhas, saibamos cumprir na vida a palavra que proclamamos diante das assembleias de cristãos que nos foram confiadas. A nossa entrega fiel, por Cristo, com Cristo e em Cristo, será a forma mais plena de darmos glória a Deus, hoje e sempre.

Vila Real, 28 de março de 2024

+António Augusto de Oliveira Azevedo
Bispo de Vila Real

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