História

DIOCESE DE VILA REAL

1- Das origens à actualidade

            A ideia da criação da diocese de Vila Real já vinha de longe. A 20 de Agosto de 1823, a câmara municipal e as pessoas ilustres e influentes da cidade apresentaram ao rei D. João VI um requerimento a pedir a criação da diocese, com a sua própria sé catedral e o seu cabido, separando-se de Braga e demarcando-se o novo bispado pelo rio Tâmega. Já se reconhecia a necessidade da criação da diocese. Esta ideia foi crescendo e ganhou corpo quando, a 3 de Janeiro de 1917, D. Manuel Vieira de Matos, arcebispo de Braga de 1915 a 1923 e natural de Poiares da Régua, apresentou na nunciatura apostólica de Lisboa um ofício no qual pedia a criação de uma nova diocese em Portugal que coincidisse com o distrito civil de Vila real. Depois de consultados os bispos de Portugal e de um modo especial o de Bragança, D. José Lopes Leite de Faria, e o de Lamego, D. Francisco José Ribeiro de Vieira e Brito, pois destas dioceses eram desmembradas freguesias, e com o voto consultivo dos cardeais da cúria romana, foi criada, pelo papa Pio XI, a diocese, pela bula Apostolica Praedecessorum Nostrarum sollicitudo, de 20 de Abril de 1922. O número de paróquias que consta na bula é de 257, mas foi rectificado para 256 pelo arcebispo de Braga, na pastoral-decreto da execução da bula de erecção da diocese, a 25 de Julho de 1922. Assim, a nova diocese era formada por 166 paróquia de Braga, 19 de Bragança e 71 de Lamego e compreendia toas as freguesias dos concelhos de Alijó, Boticas, Chaves, Mesão Frio, Mondim de Basto, Montalegre, Murça, Peso da Régua, Ribeira de Pena, Sabrosa, Santa Marta de Penaguião, Valpaços, Vila Pouca de Aguiar e Vila Real. Pelo mesmo documento, era constituída a cidade de Vila Real como «sede e cátedra episcopal, com todos os direito, privilégios e honras de que gozam todas as outras sedes episcopais de Portugal» e elevada a igreja paroquial de São Domingos à categoria de catedral «com os direitos, honras, insígnias e privilégios que competem por direito ou por legítimo costume às outras catedrais». Finalmente Pio XI declarava o novo bispado como sufragâneo d arquidiocese de Braga e, enquanto não tivesse pastor próprio, confiava-o a D. Manuel Vieira de Matos, «como seu administrador apostólico, dando-lhe todas as faculdades e direitos que convêm ao seu múnus». Como curiosidade devemos ainda dizer que faz parte da diocese a cidade de Chaves (Aquae Flavia) que, durante o domínio suevo, foi, provavelmente, sede do efémero bispado flaviense de que foi prelado o famoso Idácio de Límia, autor do Cronicon.

            Com cerca de 4273,20 km2 a área da diocese corresponde ao distrito. Em 1981, tinha uma população de 264 381 habitantes, disseminados por 14 concelhos. Em 1991, tinha apenas 236 294 habitantes, com uma quebra de mais de 13%. A diocese é constituída por 264 paróquias agrupadas em oito arciprestados (Douro I – 27; Douro II – 28; Centro I – 47; Centro II – 16; Baixo Tâmega – 14; Alto Tâmega – 65; Barroso – 35; Valpaços – 32). Actualmente, a área da diocese tem uma população de 213 775 habitantes (Censos de 2011), contando com 111 sacerdotes e três diáconos permanentes, dois quais 82 são párocos ou vigários paroquiais (Anuário Diocesano de 2020).

            Foi seu primeiro bispo D. João Evangelista de Lima Vidal (1923-1933), a quem sucedeu D. António Valente da Fonseca (1933-1967). O terceiro bispo foi D. António Cardoso Cunha (1967-1991), a quem sucedeu D. Joaquim Gonçalves, que primeiro foi nomeado bispo coadjutor, em 19 de Maio de 1987, e desde 19 de Janeiro de 1991 se tornou bispo titular. Sucedeu-lhe no governo da diocese, como seu quinto bispo, D. Amândio José Tomás, que fora nomeado coadjutor a 5 de Janeiro de 2008, tornando-se o bispo titular da diocese em 2011. Manteve este múnus até 2019, altura em que o encargo pastoral da diocese foi entregue ao seu actual bispo, D. António Augusto de Oliveira Azevedo. Entre 1964-1966 serviu também a diocese, como bispo auxiliar, D. António de Castro Xavier Monteiro.

            Podemos dizer que, desde a sua fundação até aos nossos dias, houve dois períodos distintos na vida da diocese: um período pré-conciliar e um período pós-conciliar. Durante o primeiro período, que engloba, que engloba a governação dos dois primeiros bispos, procurou-se organizar o centro administrativo da diocese, dotando-a de todos os elementos necessários e de todas as estruturas exigidas pelo direito canónico, assim como a construção do seminário. Depois vem o segundo período, em que começa a haver crise de sacerdotes e é necessário pensar a pastoral e estruturar de outra forma a vida da diocese e das paróquias, segundo as directrizes conciliares.

2. As instituições e a vida cristã

            D. João Evangelista procurou dinamizar a diocese dotando-a de instituições e legislação para uma melhor e mais eficaz orientação dos pastores, que deveriam guiar os cristãos desta diocese, e para uma melhor governação e orientação espiritual da mesma.

2.1 – Legislação e doutrina

            D. João Evangelista criou a “Obra das Vocações e do Seminário”; promulgou o decreto sobre a bênção com indulgência planária no dia da Imaculada Conceição; promulgou o decreto sobre a pregação da palavra de Deus e o programa de exames do pregador. Publicou ainda uma instrução para a visita pastoral segundo o pontifical romano e o cerimonial dos bispos, uma carta pastoral sobre o baptismo e modelos de assento, um artigo sobre a confirmação, respectiva legislação e modelos de assento, uma instrução sobre missas paroquiais festivas e de binação, um decreto estabelecendo as tabelas diocesanas da cúria, dos párocos e do clero em geral e o regulamento dos processos matrimoniais.

            Quanto à doutrina salientamos as exortações pastorais. A primeira é de D. António Valente da Fonseca, publicada a 10 de Março de 1942, sobre “Os deveres da hora presente: produzir e poupar, rezar e fazer penitência”. Depois de uma introdução tece considerações de teor económico e lança perspectivas de espiritualidade. As conclusões são práticas, de índole económica, moral e religiosa.

            D. António Cardoso Cunha publicou, a 30 de Maio de 1976, a “Reflexão Pastoral sobre a Religiosidade do Nosso Povo”. Este trabalho é constituído por cinco capítulos: 1) religiosidade popular na diocese; 2) a lei da encarnação; 3) a religiosidade popular é fenómeno constante na vida da Igreja; 4) a religião e os sinais; 5) considerações de ordem prática. Apresenta a religiosidade popular como uma riqueza a conservar a todo o custo.

            D. Joaquim Gonçalves publicou, em Novembro de 1996, a carta pastoral “Um povo em festa”, para celebrar os 75 anos da criação da diocese. Depois de uma breve referência à história desse 75 anos e de uma reflexão atenta sobre a realidade da diocese, apresenta orientações pastorais concretas para melhor viver e celebrar a data jubilar tendo em vista um maior compromisso de todos os baptizados.

            Organizar uma diocese nova, pôr em funcionamento a sua regular administração, dotá-la dos elementos necessários à existência, dar-lhe os meios indispensáveis para o progresso, provê-la de instituições necessárias à coordenação de funções, à evangelização, ao exercício da caridade e ao culto sagrado, fazer a união dos fiéis que lhe pertencem; eis a difícil missão de D. João e seus sucessores.

            Na diocese de Vila Real, como em geral em todas as dioceses do país não era difícil notar que a instrução religiosa estava longe de atingir aquele grau de perfeição que convinha. Torna-se pois urgente que os sacerdotes e os católicos dedicados redobrassem esforços em tudo o que dizia respeito ao ensino religioso. Pouco tempo depois de ter entrado na diocese, D. João Evangelista lamentava-se da ignorância religiosa das crianças, dos rapazes e raparigas que encontrava nas visitas pastorais. Era necessário quem ajudasse os párocos nesta árdua tarefa e uma estrutura que fosse capaz de animar, sustentar e dinamizar todo esse trabalho de catequese. Em 29 de Janeiro de 1924, promulgou o “Estatuto da Associação da Catequese” na diocese de Vila Real, composto de nove artigos, onde se determina a finalidade da associação, os seus membros, a direcção, as obrigações dos catequistas e a divisão das crianças em três secções. Logo no 1º artigo indicavam-se como únicas finalidades da associação uniformizar, regulamentar e aperfeiçoar o ensino da doutrina cristã na diocese e recrutar e formar catequistas idóneos. A primeira erecção canónica da Associação da Catequese foi no dia 6 de Maio de 1924. Depois, foram-se formando núcleos locais em todas as paróquias. A melhor maneira de alimentar e fortalecer o movimento catequético foi o de reunir em Vila Real um pequeno Congresso de Catequese, para aí serem versados, por oradores competentes, diferentes temas cujas conclusões práticas ficariam como um caminho aberto e recomendado para todos.

            O congresso realizou-se nos dias 16, 17 e 18 do mês de Junho de 1925, durante o tríduo solene preparatório para a festa da consagração da diocese ao Sagrado Coração de Jesus. Este congresso foi um êxito e os interessantes trabalhos nele apresentados foram depois publicados num livro com o título: “Memória do Primeiro Congresso de Catechese”, editado pela diocese (Lisboa, 1925, 196 páginas). Este congresso e outras iniciativas de carácter semelhante também tiveram como resultado prático a criação de uma consciência diocesana nas terras de Trás-os-Montes. O congresso catequético não pretendeu ser um termo de chegada, constituindo efectivamente um verificar de actividades, um pensar em comum, um acertar de directrizes; ele significou sobretudo um ponto de partida a animar boas vontades para novos e vigorosos empreendimentos no ensino religioso.

            Um outro meio utilizado para a dinamização da diocese foi a realização do Congresso de Liturgia, agora de âmbito nacional, que reuniu na cidade os maiores mestres de liturgia do país. O Congresso Litúrgico de Vila Real, que foi como que a continuação e o complemento do Congresso da Catequese, pois a liturgia é sem dúvida uma das fontes mais ricas e inexauríveis do ensinamento religioso, seria também a primeira realização do género em Portugal. Ocorreu nos dias 17 a 19 de Junho de 1926. Neste congresso, entre outros, estiveram presentes o núncio apostólico, o bispo do Porto, D. António Barbosa Leão, o bispo coadjutor de Lamego, D. Agostinho de Jesus e Sousa, o bispo auxiliar da Guarda, D. João de Oliveira Matos, e sobretudo o grande liturgista da altura, o beneditino D. António Coelho.

            Este I Congresso de Liturgia, para além de contribuir para a formação litúrgica e para uma melhoria nas celebrações no âmbito da diocese, teve também consequências práticas a nível nacional. Aqui germinou a revista litúrgica Opus Dei que apareceu em Novembro de 1926. Como se lê no primeiro número, esta revista é fruto de um voto do congresso. A segunda consequência é a publicação do Curso de Liturgia Romana de D. António Coelho em cinco volumes, traduzido em várias línguas. Outra consequência é que este congresso imprimiu um impulso real ao movimento de restauração litúrgica e preparou o terreno para novos congressos diocesanos e nacionais, bem como cursos e semanas litúrgicas, tanto a nível diocesano como nacional. Assim, deu passo firme em Vila Real o movimento litúrgico português, em ressonância do que se ia verificando em muitos outros países cristãos.

            Para publicar normas e decretos e para informar toda a diocese, D. João criou o Anjo da Diocese, boletim eclesiástico quinzenal, órgão oficial da diocese. Foi criado por decreto de D. João de 30 de Outubro de 1923. Terminou a sua publicação a 1 de Dezembro de 1933 (último número). Foi seu primeiro director monsenhor Jerónimo Amaral. Actualmente existe o Boletim da Igreja Diocesana de Vila Real, publicação quadrimestral.

2.2 – Governo e administração

            D. João procurou organizar a diocese dotando-a das estruturas jurídico-institucionais exigidas pelo Código de Direito Canónico. Começou por organizar a cúria diocesana. Assim, a 24 de Outubro de 1923, dia da tomada de posse, nomeou como provisor e vigário-geral monsenhor Jerónimo Teixeira de Figueiredo e Amaral. O tribunal eclesiástico diocesano foi constituído a 3 de Dezembro de 1923, sendo nomeado como oficial do mesmo o padre Filipe Correia Mesquita Borges. A 13 de Dezembro do mesmo ano são nomeados os juízes pró-sinodais, examinadores pró-sinodais e os párocos consultores. Instituiu o conselho de administração dos bens da diocese a 23 de Janeiro de 1925 e constituiu a Comissão Diocesana da Música Sacra a 21 de Janeiro de 1928. Embora a bula da criação da diocese afirmasse expressamente que se criasse o cabido da sé catedral, o certo é que este nunca foi instituído. Ao longo dos últimos anos tem-se procurado que entrem em funcionamento as estruturas do Concílio Vaticano II na administração económica das paróquias: conselhos económicos e conselhos pastorais.

2.3 – Cultura e evangelização

            A bula da criação da diocese recomendava que logo que fosse possível se criasse um seminário diocesano. Enquanto isto não fosse possível o ordinário deveria providenciar da melhor maneira, mandando os alunos para os seminários mais próximos.

            Quando D. João Evangelista entrou na diocese encontrou já a funcionar um pequeno seminário em Gralhas, Montalegre, numa casa rústica. Fundado em 1921, ainda sob a administração do seminário da diocese de Braga, era já o fermento do futuro Seminário de Vila Real. No ano lectivo de 1923-1924, cerca de 20 alunos recebem aí os primeiros cuidados da sua formação. Foi seu reitor o padre Dr. Serafim de Oliveira, formado em filosofia pela Universidade Gregoriana. O pequeno Seminário de Gralhas foi extinto por D. João de Lima Vidal, por decreto, a 27 de Fevereiro de 1925, apresentando várias razões, entre as quais a reivindicação da casa pela diocese de Braga.

            Entretanto, D. Manuel Vieira de Matos, a 8 de janeiro de 1924, tendo ficado herdeiro único da casa de Poiares, cedeu-a com os seus terrenos adjacentes, para aí ser instalado um pequeno seminário salesiano que viria a receber os alunos da diocese até ao ano de 1930-1931. Foi pelo decreto de 2 de abril de 1924 que D. João criou o Pequeno Seminário de Poiares da Régua. No ano lectivo de 1924-1925, frequentaram-no 20 alunos. Depois, estes alunos continuavam os estudos eclesiásticos no Seminário de Braga. Os últimos alunos da diocese a ir para o Seminário de Braga terminaram o curso em 1936.

            Quando D. João chegou a Vila Real já encontrou uma atmosfera simpática e de piedade para com o seminário diocesano que se deveria construir no coração da diocese. Até já se pensava que este deveria ser constituído no velho Convento de Santa Clara, que se tornara propriedade do Estado em 1911. Por isso era necessário comprá-lo ao Estado ou, o que era conveniente para ambas as partes, adquiri-lo em troca pelo edifício e anexos do Liceu Camilo Castelo Branco, pertença do monsenhor Jerónimo Amaral. O Congresso da República, pela Lei 1693 de 11 de Dezembro de 1924, autorizou a troca que se efectuou a 25 de Abril de 1925. Uma vez que a diocese, nesse tempo, não tinha personalidade jurídica civil, foi necessário criar uma sociedade anónima, sob a denominação Auxiliadora Transmontana, que ficasse proprietária do convento e anexos, já então pertença de monsenhor Jerónimo, um dos sócios fundadores, e que este trazia para a fundação. Este facto ocorreu em 19 de Fevereiro de 1930. Só em 1941, após a concordata entre Portugal e a Santa Sé, é que a diocese tomou posse do seminário.

            Em 18 de Fevereiro de 1926 começou a demolição do Convento de Santa Clara e em 25 de Julho do mesmo ano D. João Evangelista foi ao Brasil a fim de angariar fundos para a construção do Seminário. Em Junho de 1927, começou a construção da ala sul do seminário e, em 23 de Outubro de 1930, deu-se a entrada dos primeiros 21 alunos. No dia 24, sete anos após a entrada de D. João na diocese, teve lugar a abertura solene do seminário, com duas alas a funcionar. No ano lectivo de 1931-1932, ingressaram no Seminário, para além dos alunos que vieram para o 1º ano, os alunos de Poiares e de Braga, e outros que vieram do Liceu de Chaves e até de ordens religiosas.

            Em 31 de Outubro de 1933, D. João Evangelista deixa a diocese de Vila Real e é substituído por D. António Valente, seu bispo auxiliar, que continuou as obras do seminário.

            Em 1940, terminaram o curso três alunos dos 21 que entraram para o seminário em 1930 e ali fizeram todos os seus estudos. Em 1942, estava pronta a ala nascente; em 1951, fechava-se o quadrado com a ala norte; e, finalmente, em 1953, terminavam as obras. Até 1966, o Seminário de Vila Real funcionou como seminário maior e menor e nele era dada toda a formação: humanística, científica e espiritual. Para as disciplinas de Direito Canónico, História da Igreja, Sagrada Escritura, Moral e Teologia Dogmática, todos os professores eram formados nas universidades católicas, quase sempre na Gregoriana em Roma. Durante anos, O Seminário de Vila Real foi a única instituição de ensino superior existente no distrito.

            Desde o ano lectivo de 1966-1967 segue-se um novo período e uma nova fase da vida do seminário. Outro bispo, outro vice-reitor, outro estilo de educação, outra maneira de tratar com os seminaristas. Os alunos do curso de teologia passaram a viver e a frequentar o Seminário Maior do Porto. No ano lectivo de 1966-1967, foram os alunos do 1º e 2º anos do Curso de Teologia, no ano seguinte foram os outros e o Seminário de Vila Real passou a seminário menor. Desde que foi criada a Faculdade de Teologia da Universidade Católica no Porto, os alunos da diocese vivem no Seminário Maior do Porto e frequentam a universidade.

            Em 1992, foi erecto canonicamente o Centro Católico de Cultura que funciona no edifício do seminário. Nele foi dado já um Curso Básico de Teologia, Cursos de Habilitação Pedagógica Complementar e um Curso de Licenciatura em Ciências Religiosas. A orientação científica e pedagógica é da Faculdade de Teologia da Universidade Católica, núcleo do Porto.

            Para além do seminário e do Centro Católico de Cultura, há ainda que destacar, como escola católica, o Colégio Moderno de São José (Ciclo Preparatório) – internato e externato a cargo das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.

            Em muitas paróquias da diocese existem jornais paroquiais que procuram dar informação e cultura religiosa às pessoas. De âmbito diocesano, as Conferências de São Vicente de Paulo detêm a propriedade do jornal semanário A Voz de Trás-os-Montes, fundado em 1947; e o jornal Avé Maria, fundado em 1958 pelo padre Manuel Mendes. Continua a ser publicado semanalmente. Importante ainda foi a revista trimestral Ecos do Marão, revista dos professores e alunos do Seminário de Vila Real. Foi fundada em 1947 e só teve quatro números.

            São muitas as igrejas antigas na diocese, pertencentes aos mais variados estilos arquitectónicos. Há igrejas românicas em Pitões das Júnias, igreja do desaparecido convento (séculos XII ou XIII); São Vicente da Chã (Montalegre); Vila Real (a Capela de São Brás, do século XIV com o túmulo de João Teixeira Macedo, herói das campanhas africanas no reinado de D. Afonso V); e a Capela de Nossa Senhora da Azinheira, em Outeiro Seco, Chaves, que representa, segundo Virgílio Correia, o mais interessante templo românico do extremo norte de Trás-os-Montes. Data do século XIII e apresenta uma notável leveza de linhas. Há ainda a igreja de Vila Marim, bastante adulterada no seu românico de origem. Por detrás do altar-mor encontram-se restos de pinturas e frescos que foram restaurados.

            De estilo romano-gótico são as igrejas de São Dinis (século XIV) e de Tresminas (finais do século XVI). Do estilo gótico pouco mais resta que a Igreja de São Domingos, actual Sé de Vila Real (século XV), a capela de Nossa Senhora de Guadalupe (Vila Real) de um gótico modesto do século XV e a singela igreja de Sapiãos, Boticas.

            Do estilo gótico-manuelino há a igreja matriz de Chaves. Numa das paredes de abside abre-se um nicho que abriga uma imagem de granito representando a padroeira, Santa Maria Maior, considerada uma das mais antigas peças da estatuaria portuguesa.

            Relativamente à arquitectura barroca religiosa (século XVIII) existe a Capela Nova ou dos Clérigos, a capela do Palácio de Mateus, da autoria de Nicolau Nazoni, a Igreja de São Pedro (Vila Real) e a Igreja da Misericórdia de Chaves, um interessante exemplar barroco dos finais do século XVII. Dos finais século XVII é também a Igreja de Santa Eulália de Pensalves (Vila Pouca de Aguiar), um dos melhores exemplares da arte barroca.

            Como curiosidade devemos afirmar que a Igreja de Poiares, Régua, tem uma valiosa cruz processional em prata, mandada executar em 1225 por Afonso Mendes, prior da Ordem do Hospital.

            Entre os vultos mais significativos na história diocesana destacamos os bispos e tantos padres que, pela cultura, benemerência e santidade, foram e são ainda hoje pontos de referência da Igreja:

            D. João Evangelista de Lima Vidal nasceu a 2 de Abril de 1874, na freguesia de Vera Cruz e faleceu a 5 de Janeiro de 1958. Exerceu o seu ministério como professor no Seminário de Coimbra e como cónego da sé da mesma cidade. Foi bispo de Angola e Congo em 1909. Regressando a Portugal, foi nomeado arcebispo de Mitilene e auxiliar de Lisboa (1915) e primeiro arcebispo-bispo da diocese de Vila Real a 23 de Maio de 1923, tomando posse a 24 de Outubro de 1923. A 23 de Setembro de 1930 foi nomeado primeiro superior-geral da Sociedade Portuguesa das Missões e em1933 deixou o governo da diocese. Distinguiu-se nas visitas pastorais que fez por toda a diocese. Fundou as Florinhas de Neve, instituição de amparo a crianças pobres, e começou a construção do seminário diocesano, visitando o Brasil, em 1926-1927, com a finalidade de conseguir fundos para a sua construção. Realizou um Congresso de Catequese e o I Congresso Litúrgico Português. D. João teve a difícil tarefa de pôr de pé e dinamizar a diocese então criada, para que pudesse ser mais eficaz a sua administração. A ele coube a tarefa de organizar e dar unidade à diocese.

            D. António Valente da Fonseca nasceu a 19 de Novembro de 1884, em Válega, Ovar. Depois de ter concluído, no Seminário Maior do Porto, em 1906, o curso de Teologia, frequentou a Universidade Gregoriana, onde se doutorou em Filosofia e Direito Canónico. Ordenado sacerdote em Roma, em 21 de Dezembro de 1927, e tendo regressado a Portugal, foi pároco de Gondomar e de Cedofeita, na cidade do Porto. Nomeado bispo titular de Céramo e auxiliar de Vila Real, a 23 de Outubro de 1931, foi sagrado a 21 de Fevereiro de 1932, entrando na diocese a 8 de Maio do mesmo ano. Passou a bispo residencial de Vila Real a 31 de Maio de 1933, tomando posse a 29 de Julho. Resignou a 10 de Janeiro de 1967. Coube a este prelado continuar e completar a construção do seminário, assim como o fortalecimento da vida espiritual da diocese. Publicou o livro de orações para o uso dos seminaristas (1945) e os novos estatutos (1953), que vinham substituir o regulamento provisório de D. João. Entre outras obras que perpetuam a sua actividade pastoral na diocese conta-se a construção da maior parte do seminário. Foi ao seminário que o 2º bispo de Vila Real dedicou a maior parte da sua actividade, preocupação e desvelos. Desde 1933 a 1953 forma duas décadas de trabalho árduo e cansativo, oneroso e dispendioso, num período de tempo que abrangeu duas guerras: a internacional guerra civil espanhola de 1936 a 1939 e a mundial de 1939 a 1945, quando tudo escasseava e havia dificuldades de toda a ordem. D. António Valente da Fonseca deixou atrás de si duas grandes obras: uma de restauração e fortalecimento da vida espiritual e outra de construção material. D. António dedicou-se com muito empenho à Acção Católica, não se poupando a esforços de toda a ordem para a implantarem todas as paróquias da diocese. Esta Actividade da Acção Católica havia de dar os seus frutos, contribuindo para a renovação litúrgica e espiritual da vida paroquial.

            D. António Cardoso Cunha nasceu a 13 de Julho de 1915, em Penso, Sernancelhe. Aluno do Seminário de Lamego, foi ordenado presbítero a 16 de Abril de 1938. Após ser pároco, licenciou-se em História da Igreja na Universidade Gregoriana (Roma) e estagiou em São Sulpício (Paris), onde cursou também Ciências Sociais. Regressado à sua diocese, desempenhou as funções de vice-reitor do Seminário de Resende, em 1950, e do Seminário Maior de Lamego, em 1954. Foi nomeado bispo auxiliar de Beja a 9 de Março de 1956, sendo ali a sagração episcopal, a 10 de Junho de 1956. A 22 de Julho de 1965 foi nomeado administrador apostólico de Beja, e bispo coadjutor de Vila Real com futura sucessão a 3 de Julho de 1966. Foi bispo residencial de Vila Real desde 10 de Janeiro de 1967 até 19 de Janeiro de 1991, altura em que passou a bispo emérito. Em 1967, completou a obra do Seminário, dotando-o, com um enorme esforço económico, de uma quinta. A ele se deve também a construção do Paço Episcopal.

            Benfeitor insigne foi monsenhor Jerónimo Teixeira de Figueiredo Amaral. Nasceu na Casa de Urros, em Mateus, Vila Real, a 4 de Novembro de 1859. Aos 16 anos foi para Coimbra frequentar a universidade onde se doutorou em Direito Civil e Canónico, em 1882. Nove anos depois de ter terminado o curso de Direito, resolveu ordenar-se padre. Foi para Braga onde chegou a frequentar o seminário, mas foi ordenado na Sé de Viseu em Fevereiro de 1892. Dedicou-se à educação da juventude, fundando, em 1892, o Colégio de Nossa Senhora do Rosário para rapazes. Em 1896, foi elevado à dignidade de monsenhor e nomeado protonotário apostólico. Em 1923, com a fundação da diocese, foi nomeado provisor e vigário-geral da diocese. Em 1926, sendo proprietário do Liceu Camilo Castelo Branco, trocou-o pelo velho Convento de Santa Clara, para aí se construir o seminário diocesano. Foi ele ainda que ofereceu o paço para nele se instalar o primeiro bispo de Vila Real e que pagou a bula da criação da diocese. Podemos dizer que dedicou toda a sua vida à difusão da fé, praticando o bem e espalhando toda a sua fortuna por obras de caridade. Faleceu a 8 de Fevereiro de 1944.

            Monsenhor Libânio Borges nasceu no lugar de Tourencinho, freguesia de Telões, concelho de Vila Pouca de Aguiar, a 30 de Abril de 1898. Desde 1908 a 1911 fez a instrução primária na escola de Vreia de Jales. De seguida, frequentou o Liceu de Vila Real, onde completou o 5º ano. Depois cursou Humanidades no Seminário de Braga e terminou o curso de Teologia em 1920. Foi, em seguida, prefeito na Escola Académica Bracarense, durante dois anos. A 3 de Junho de 1921 recebeu a ordenação sacerdotal. De 1923 a 1927, durante quatro anos, foi professor e prefeito no pequeno Seminário de Gralhas, sendo também pároco de Solveira. Em 1927, extinto o pequeno Seminário de Gralhas, foi para Roma. Frequentou Direito Canónico na Universidade Gregoriana, tendo-se doutorado em 1930. Regressou à diocese nesse ano, sendo então nomeado professor, vice-reitor (1930-1936) e depois reitor (1936-1967) do Seminário de Vila Real, onde a morte o colheu repentinamente a 11 de Julho de 1968, deixando atrás de si o exemplo de uma vida exclusivamente dedicada à Igreja e ao seminário.

            Insigne orador sagrado foi o padre Luís Augusto Dias de Azevedo Castelo Branco. Nasceu na freguesia de Vilarinho da Samardã, concelho de Vila Real, a 29 de Novembro de 1884 e aí faleceu a 6 de Março de 1973. Frequentou o colégio de Felgueiras, onde o seu pai era funcionário, e fez o curso teológico no Seminário Conciliar de Braga. Por ter acabado o curso muito novo, enquanto aguardava a idade canónica para ser ordenado sacerdote, foi prefeito e professor no Seminário de Santo António na mesma cidade de Braga. Recebeu o presbiterado na sé primaz a 28de Julho de 1907 e regressou à sua terra natal, onde foi pároco até 1910, cerca de dois anos e meio. Depois dedicou-se à pregação e percorreu o país de norte a sul. A sua fama de pregador chegou também ao estrangeiro, tendo pregado na Espanha, França, Itália e Brasil. Apesar de não ter deixado nada escrito, foi talvez o maior orador sagrado dos últimos tempos em Portugal. Foi ainda, durante 15 anos, professor de Oratória Sagrada e de Teologia Mística no Seminário Maior de Vila Real. Por sua iniciativa fundou-se no Seminário de Vila Real a Academia Missionária.

            Oriundos do território da diocese são ainda: D. Manuel Vieira de Matos, D. Agostinho de Jesus e Sousa e D. Agostinho Joaquim Lopes de Moura.

            D. Manuel Vieira de Matos nasceu a 22 de Março de 1861, em São Miguel de Poiares, Régua. Fez os seus primeiros estudos no Colégio de Lamego e daqui foi para o Seminário de Braga. Passou para a diocese de Lamego, depois de ter terminado, em1882, o curso teológico. Recebeu a ordenação a 22 de Setembro de 1883. Ingressou na Faculdade de Teologia em Coimbra, concluindo a formatura em 1890. Depois de ter sido cónego da Sé de Viseu, professor e director espiritual no seminário, foi nomeado arcebispo de Mitilene e vigário-geral do patriarcado. Em Lisboa passou quatro anos de intenso trabalho e sucedeu, em 1903, D- Tomás Gomes de Almeida, bispo da Guarda. Foi transferido para Braga, tomando posse da diocese a 14 de Março de 1915. Governou a diocese durante 18 anos. Da sua actividade pastoral destaca-se a convocação de vários sínodos e congressos, e sobretudo o empenho que colocou na criação da diocese de Vila Real.

            D. Agostinho de Jesus e Sousa era natural de Pensalves, concelho de Vila Pouca de Aguiar, então pertencente à arquidiocese de Braga, onde nasceu a 7 de Março de 1877. Veio a ser bispo de Lamego de 1922 a 1942 e do Porto de 1942 a 1952.

            D. Agostinho Joaquim Lopes de Moura nasceu em Folhadela, Vila Real, e foi bispo de Portalegre.

            Na freguesia de Telões, concelho de Vila Pouca de Aguiar, nasceu ainda o padre Manuel do Couto (1819-1897), autor do famoso livro Missão Abreviada (1ª ed. 1859, 16ª ed. 1900), um clássico da espiritualidade do tempo.

2.4 – Espiritualidade

            A espiritualidade foi muitas vezes desenvolvida à sombra de conventos ou pelos religiosos e padres que na diocese desenvolveram o seu ministério. Na diocese houve conventos de franciscanos em Vila Real, Chaves e Mesão Frio; de clarissas em Vila Real, de beneditinos e depois cistercienses em Pitões das Júnias (Montalegre) e de dominicanos em Vila Real.

            Actualmente desenvolvem o seu trabalho apostólico na diocese os seguintes institutos religiosos masculinos: Padres Franciscanos (Vila Real), Padres Lazaristas/Vicentinos (Chaves), Padres Missionários do Espírito Santo (Godim-Régua).

            Desenvolvem também a sua actividade pastoral na diocese os seguintes institutos religiosos femininos: Religiosas da Divina Providência (Vila Real), Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (Vila Real), Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora (Vilarandelo e Santa Marta de Penaguião), Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados (Chaves), Religiosas do Amor de Deus (Valpaços), Missionárias Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus (Godim-Régua), Congregação das Irmãs Conceicionistas ao Serviço dos Pobres (Pedras Salgadas), Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado (Vilar de Nantes – Chaves, Loivos – Chaves, Chaves  e Irmãs do Instituto do Sagrado Coração de Maria (Atei – Mondim de Basto).

            A religiosidade popular é muito rica de valores, que têm em conta a expressão cultural de um povo, a maneira de viver a sua fé. Os santuários cristãos foram e continuam a ser sinais visíveis da presença de Deus e da sua entrada na história humana. Cada um deles é um memorial do mistério da Encarnação e da Redenção. A devoção mais arraigada na diocese é a devoção a Nossa Senhora, que é invocada sob várias denominações, não só nas igrejas, mas também e sobretudo nos diversos santuários, onde todos os anos afluem muito peregrinos. Das 264 paróquias da diocese 66 têm Nossa Senhora como padroeira. Os santuários mais importantes são os seguintes: Nossa Senhora da Boa Morte (Pópulo – Alijó), Nossa Senhora da Piedade (Sanfins do Douro), Nossa Senhora da Saúde (São Pedro de Agostém – Chaves; Vilar de Perdizes – Montalegre; Saudel, São Lourenço de Riba Pinhão – Sabrosa e Valpaços), Nossa Senhora da Graça, um dos principais santuários de Trás-os-Montes (Vilar de Ferreiros – Mondim de Basto), Nossa Senhora da Guia (Santa Marinha – Ribeira de Pena), Nossa Senhora da Azinheira (São Martinho de Anta – Sabrosa), Nossa Senhora do Viso (Fontes – Santa Marta de Penaguião), Nossa Senhora da Conceição (Vila Pouca de Aguiar), Nossa Senhora da Pena (Mouçós – Vila Real), Nossa Senhora de La Sallete (Vila Cova – Vila Real), São Caetano (Couto de Ervedo – Chaves) e Senhor Jesus da Piedade (Montalegre).

2.5 – Assistência

            A assistência aos pobres e necessitados foi sempre e continua a ser uma das preocupações da Igreja e uma das formas de evangelização. Isto mesmo compreendeu D. João quando, em 11 de Novembro de 1923, lançou publicamente a ideia de uma sopa dos pobres. A 8 de Dezembro iniciava os seus serviços, fornecendo uma refeição diária a 20 pobres, mas o número foi sempre aumentando.

            Outra preocupação o atormentava fortemente: o amparo a crianças pobres e desvalidas e em perigo moral, o seu agasalho e educação, e a orientação das suas aptidões, preparando-as para o futuro e fornecendo-lhes os elementos indispensáveis para depois mais facilmente seguirem o seu rumo. Assim, fundou a Associação Protectora das Florinhas de Neve. Hoje encontra-se agregada à Misericórdia de Vila Real e, com os mesmos fins, denomina-se Escola Donas de Casa.

        Também as 14 irmandades da Santa Casa da Misericórdia e os 25 Centros Sociais e Paroquiais mantêm obras de caridade e assistência à infância e à terceira idade, sobretudo nas sedes concelhias. Existem ainda outras obras de assistência na diocese: Património dos Pobres, Patronato de São José de Godim, Patronato-Creche de Pedras Salgadas, Abrigo Berta Montalvão de Loivos e Asilo Pedro Verdial da Régua.