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Solenidade de Cristo-Rei

Nesta solenidade de Cristo-Rei com que encerra festivamente o ano litúrgico, proclamamos a nossa esperança de que o fim dos tempos significará a realização plena da salvação. Em Cristo se consumarão todas as coisas e o seu Reino será plenamente realizado. Nestes tempos de incertezas e angústias que vivemos, esta esperança dá novo alento ao nosso caminho e à nossa missão. Ela precisa de ser proclamada ao mundo e soprada a tantos ouvidos: Jesus Cristo é Rei e Senhor da História, Ele é o Alfa e o Ómega, no fim reunirá em si todas as coisas.

Ao longo da sua vida terrena, Jesus sempre teve relutância em que O chamassem de Rei e afastava-se quando O quiseram proclamar como tal. No Evangelho escolhido para esta solenidade não encontramos uma entronização solene, nem a afirmação exterior de poder. Pelo contrário, encontramos Jesus crucificado e sobre a cabeça uma placa cravada na cruz, apelidando-O de “Rei dos Judeus”. Desde logo, este quadro representa o caráter novo e paradoxal da realeza de Jesus: ela não se manifesta pela força, ostentação ou domínio sobre os outros; antes se realiza na entrega da sua vida, no sofrimento pela salvação daqueles a quem ama. Nele se concretiza a Palavra: “quem quiser ganhar a sua vida, há-de perdê-la!”. Esta matriz do Reino de Cristo coloca-nos, desde o início, numa nova lógica de vida, de missão; não o da força, ou da imposição, mas a lógica do amor, do serviço, do dom de si.

Alargando o nosso olhar sobre o quadro que o Evangelho nos apresenta, verificamos que, no Calvário, o Rei e Senhor está rodeado por um grupo de judeus e de soldados que zombam dele – “Salvou os outros, salve-se a si mesmo” – e por dois malfeitores, um dos quais também alinha no insulto e ridicularização. Esta era uma atitude própria de quem não entendia o significado daquele acontecimento e o valor daquele gesto para a salvação dos homens. Aquele malfeitor estava fechado no seu desespero, estava no fim de uma vida sem sentido e sem saída. Ambos, a multidão e o malfeitor, representam uma humanidade em que tantas vezes o homem se julga rei e senhor, confiado nas suas forças e capacidades. Mas quando confrontado com os seus equívocos e com o limite insuperável que é a morte, só lhe resta o cinismo e o desespero. Porque, de facto, sem Deus não se pode salvar. Os reinos deste mundo, grandes ou pequenos, são sempre caducos; os poderes deste mundo são sempre efémeros.

O Evangelho ressalta a atitude do outro ladrão que acreditou em Jesus, se arrependeu e, naquela hora decisiva, lhe confiou o destino da sua vida, suplicando: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com a tua realeza”. Apesar dos erros da sua vida, intui que ela ainda pode ser salva, precisamente pela intervenção daquele seu companheiro de suplício. A resposta de Jesus é a confirmação de que essa era a única saída certa: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.

Nesta solenidade afirmamos a nossa convicção de que Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, é o nosso único Senhor e Salvador. Com S. Paulo “damos graças a Deus Pai (…) que nos transferiu para o Reino de seu amado Filho” e assim nos libertou do poder das trevas e da morte. E não só damos graças, como todos os dias rezamos para que “venha a nós o vosso Reino”. Esta prece não significa que Deus tudo fará em nosso lugar, mas o reconhecimento de que Ele é o Senhor e nos confiou a tarefa de construir esse reino, desde já, na nossa história. Um reino lapidarmente apresentado na liturgia deste dia como um reino eterno e universal; reino de verdade e de vida; reino de santidade e de graça; reino de justiça, de amor e de paz.

Todos estes valores definem o Reino de Cristo, Reino que Ele semeou na história como pequena semente com a promessa de que há-de tornar-se a maior das árvores. Fazer crescer o Reino, encaminhar a humanidade nesta direção, exige empenhar-se todos os dias, juntamente com os crentes, com os homens e as mulheres de boa vontade, em promover a justiça, cultivar a verdade, partilhar o amor. Essa missão é ainda mais urgente e necessária quando vemos à nossa volta a dimensão do reino da mentira, da corrupção, da injustiça, da violência.

Ainda há poucos dias celebramos os 30 anos da queda do muro de Berlim, um dos momentos mais significativos da história contemporânea, que reavivou o sonho de uma Europa e de um mundo sem muros e barreiras, onde prevaleceria a liberdade e a paz. Passados estes anos não só esses sonhos estão longe de se concretizar, como até vemos nascer novos muros, retroceder da liberdade e aumentar a pobreza e a desigualdade. A estes sinais acrescem as convulsões em várias zonas do mundo, sintoma preocupante de sociedades cada vez mais divididas e radicalizadas.

É necessário lembrar que é irresponsável e perigoso acentuar fraturas na nossa sociedade; é mais prudente e construtiva a pedagogia do diálogo e da moderação, valorizando mais o que une do que aquilo que divide. No reino dos homens há sempre quem procure dividir para reinar, procurando tirar dividendos pessoais de poder e protagonismo. Mas o aprofundar de divisões e discórdia gera dinâmicas de confronto, que é sempre um caminho incontrolável. Algo vai mal no reino dos homens, quando a arrogância dos poderes políticos e económicos não respeita as populações mais pobres; quando há complacência dos vários poderes face aos mais fortes e falta de apoio às instituições que estão ao lado dos mais frágeis; quando há carência dos meios para proteger a vida humana e tanta celeridade para promover uma cultura de morte. Algo vai mal no reino dos homens quando esquecem e se afastam dos valores do Reino de Cristo.

Nesta celebração renovamos a nossa prece a Deus para que venha o seu Reino, para que o mundo de hoje se deixe inspirar por esse reino de amor, de justiça, de verdade, de vida. E renovemos também o nosso compromisso para sermos artífices desse reino. E assim, contribuindo para a sua construção na terra, possamos participar plenamente dele no Céu.

Vila Real, 24 de Novembro de 2019

+António Augusto de Oliveira Azevedo