A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo que hoje celebramos é uma tradição com fortes raízes na nossa cultura e representa um dia com uma marca especial no cristianismo. Com todos os cristãos, neste dia reunimo-nos para venerar o mistério da presença eucarística de Jesus, um dos elementos fundamentais da nossa fé.
Em quinta-feira santa, no contexto do tríduo pascal, celebramos a instituição da eucaristia na última ceia. Em cada domingo as comunidades cristãs reúnem-se para participar na eucaristia, fazendo memória da Páscoa do Senhor. Na festa de hoje somos convidados a reconhecer a centralidade do mistério eucarístico, a dar graças por este dom sagrado, a tomar consciência das suas implicações para a nossa vida, preparando-nos para o celebrar com espírito novo e para o receber cada vez melhor.
No trecho do evangelho de hoje, escutamos uma das revelações mais surpreendentes de Jesus: «Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente». Estas duas frases do discurso do Pão da Vida já indicam a grandeza incomparável deste mistério. Por um lado, Cristo é o alimento que vem do céu, alimento divino dado aos homens. É por isso um dom único, realidade sagrada, cuja explicação nos remete para a misericórdia de Deus, o seu imenso amor capaz de nos enviar o Filho que se deu como nosso alimento.
Nos tempos que vivemos, envolvidos em tantas coisas que nos são propostas para saciar todo o tipo de interesses, desejos, conveniências e apetites, importa que nos perguntemos se não estaremos demasiado saciados de bens da terra, se não esquecemos ou desvalorizamos este alimento divino. Importa, neste dia, ir um pouco mais fundo e reconhecer que poderão existir uma fome e uma sede interiores que só o alimento que é Cristo pode saciar.
Jesus apresenta-se não só como pão vivo, ou seja, Aquele cuja vida não se apaga, não esmorece, não perde força ou validade, mas promete que quem come deste pão viverá eternamente. Alimentar-se deste pão é garante de que a vida divina que Ele é e que só Ele pode dar, é comunicada a quem o recebe. Esta vida de Deus em nós não só fortalece a nossa frágil vida humana como permite que se abram para ela horizontes de plenitude e de eternidade.
No livro do Deuteronómio, Moisés recomendava ao povo que não esquecesse as dificuldades que passara no deserto e como Deus o ajudara e lhe dera alimento. Na solenidade de hoje, é igualmente recomendado aos cristãos que não esqueçam este sinal maior da presença de Deus, que não percam de vista o valor da eucaristia e a força do alimento do corpo do Senhor que nos salva e nos enche da sua vida.
A solenidade do Corpo de Deus, como é mais conhecida, é pois uma ocasião especial para dar graças. Dar graças ao Pai porque nos deu o seu Filho como nosso Salvador; dar graças ao Filho que se deu por amor e quis ficar para sempre com aqueles que ama, dando-se como alimento na eucaristia. Damos graças porque tudo isto não é mérito nem obra do homem, não é um prémio mas um dom do amor divino. Damos graças e pedimos que nunca nos falte este alimento.
Para entrarmos de forma mais séria e profunda na grandeza do mistério da presença eucarística de Cristo, é necessária, antes de mais, uma atitude de contemplação e adoração. Diante do sacrário ou na exposição solene do Santíssimo Sacramento, somos convidados a exercitar um silêncio orante, que nos ajude a superar as preocupações ou distrações do quotidiano para penetrarmos na sacralidade deste mistério. Quando estamos diante do que é mais sagrado, a experiência do silêncio não apenas exprime profundo respeito como é condição para chegar a um diálogo mais íntimo e pessoal com o Senhor. Precisamos de cultivar o silêncio, de espaços de silêncio, na nossa vida, nas igrejas e nos momentos de oração. Um silêncio contemplativo, orante; um silêncio que primeiro é desconfortável mas depois se revela rico e fecundo; um silêncio para poder escutar a Deus.
O pão do céu que é Jesus Cristo foi-nos dado como alimento, ou seja, para o podermos comungar. A comunhão eucarística surge assim como o momento de confirmação da nossa fé na presença do Senhor neste sacramento e como gesto de acolhimento daquele que renova a nossa fé. Não se trata de uma mera prática devocional mas de acolher a vida de Cristo em nós. Não se trata de captar Jesus, individual ou parcialmente, mas de acolher a sua vida toda, Corpo e Sangue, palavra e missão. É acolher a sua vida em nós para caminharmos como seus discípulos autênticos na história.
Na carta aos Coríntios, S. Paulo sublinhava um aspeto decisivo: «visto que há um só pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo». A comunhão do corpo do Senhor é também o grande sinal que gera e aprofunda a comunhão na Igreja. Comungar o mesmo Senhor, não só reforça a comunhão com Ele mas com todos os irmãos. Apesar de todo o tipo de diferenças, comungar o corpo de Cristo compromete-nos na construção do seu corpo na história, ou seja, da comunidade dos seus discípulos, mais unida e fiel ao espírito do Senhor.
Neste tempo de renovação eclesial, é indispensável que ela seja, antes de mais, espiritual. Na recente encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV escreveu: «A espiritualidade que necessitamos é uma espiritualidade eucarística, ou seja, uma espiritualidade da unidade eclesial no amor. A Encarnação e a Páscoa revelam Deus que entra na nossa condição humana e a transfigura no dom de si mesmo. Este dom continua presente e operante na Eucaristia, na qual o Senhor se comunica e reúne a Igreja, para que a sua oferta se torne princípio de unidade e fonte de vida nova. Desta comunhão nasce também a solidariedade cristã, pois a união com Cristo é ao mesmo tempo união com todos os outros aos quais Ele se entrega» (MH, 234).
Graças e louvores se deem a todo o momento.
Ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento.
Vila Real, 4 de junho de 2026
+António Augusto de Oliveira Azevedo
Diocese de Vila Real Diocese de Vila Real