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Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

O primeiro dia de um novo ano é sempre um momento especial para pensar e partilhar muitos sonhos, projetos e expectativas. Na vida pessoal ou familiar, no campo profissional ou social, a uma escala mais próxima ou mais global, cada pessoa inicia o ano com a esperança de que seja um ano positivo em todas as dimensões.

Como cristãos, reunidos a celebrar a nossa fé neste primeiro dia do ano, pedimos que Deus «nos abençoe e nos proteja, faça brilhar sobre nós a sua face e nos seja favorável», como rezava a bênção sobre o povo que Deus recomendou a Moisés, como escutamos no trecho do livro dos Números. Que 2020 seja um ano cheio da graça do Senhor. E neste dia solene, dedicado a Santa Maria, Mãe de Deus, invocamos a sua intercessão maternal, para que sintamos sempre a sua ajuda e aprendamos com ela a «conservar todos os acontecimentos e a meditá-los no coração».

Este dia, ainda iluminado pela intensa luz gerada pelo Natal do Senhor, é também o Dia Mundial da Paz. Inspirados pela novidade do nascimento do Príncipe da Paz, animados pela presença de Jesus, o Deus-connosco, o Deus que salva, esperamos e rezamos para que durante o ano a paz seja possível, cresça em todos os corações e progrida em todos os povos. Começamos o ano animados por esta grande esperança.

Como lembra o Papa Francisco no início da sua mensagem para este dia: «A paz é um bem precioso, objeto da nossa esperança: por ela aspira toda a humanidade». Esta aspiração é prioritária quando olhamos para os conflitos espalhados por tantas partes do mundo, quando reparamos nas tensões e conflitos internos em vários países, marcados pela divisão, corrupção e violência e sobretudo quando nos apercebemos do número de vítimas que não cessa de aumentar, começando pelas crianças.

O mundo precisa de mais paz, aspira a mais paz; tantas vidas reclamam a paz; tantos corações anseiam a paz. Esta humanidade que há pouco mais de dois séculos proclamava os ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, depois de progressos assinaláveis nestes domínios, assiste hoje a uma certa crise, pelo menos na prática, destes ideais. O ar da liberdade que se respira está menos límpido e percebe-se até um certo recuo em certas liberdades, como na liberdade de expressão e na liberdade religiosa. A desigualdade continua, perigosamente, a crescer, quer entre ricos e pobres, quer entre regiões e povos. Por sua vez, a fraternidade é tantas vezes comprometida e negada pela descriminação e guerra que são autênticas formas de fraticídio.

A razão de fundo das variadas formas de violência é, segundo o Santo Padre, o «não suportar a diversidade do outro que fomenta o desejo de posse e a vontade de domínio». De facto, uma cultura centrada no sujeito, erigido como Senhor e colocado no lugar de Deus, perverte as relações e promove os conflitos. Mas o outro não é adversário, concorrente ou inimigo; o outro é antes de mais nosso irmão, filho do mesmo Deus e herdeiro da mesma herança, o Reino da salvação e da paz que Jesus Cristo veio trazer para todos.

Uma paz verdadeira e duradoura não pode assentar no egoísmo, no medo ou na ameaça, na imposição do mais forte sobre o mais fraco, mas numa autêntica fraternidade que supõe o reconhecimento do outro e o respeito pela sua vida, história e cultura. A paz é um caminho a percorrer por todos, sem esquecer as raízes, é uma construção a fazer todos os dias, procurando o bem comum, no compromisso de respeitar o direito e a justiça.

O Papa Francisco recomenda, como pedagogia para superar tantos conflitos, a reconciliação. Não é a eliminação ou destruição do outro que promove a paz mas o diálogo e o perdão. Incentivar o conhecimento da história, da religião e da cultura, reconhecer o papel da memória e promover uma cultura do encontro são, condições indispensáveis para desenvolver o espírito da paz.

Um grande desafio que hoje se coloca ao futuro e à paz é o da crise ambiental, confirmada pelas alterações climáticas. O Papa Francisco apela, mais uma vez, na sua mensagem, para a necessidade de uma «conversão ecológica». Esta supõe o reconhecimento de que o planeta é uma casa comum e não propriedade individual, e a exigência de alterarmos o modo como nos relacionamos com os outros seres humanos e os outros seres vivos. É necessário mudar de hábitos de vida, pensando nos efeitos futuros das nossas ações e decisões.

Começamos o ano com a esperança de que seja um ano de felicidade e de paz. Para ajudar à concretização deste sonho acolhemos hoje a luz da Palavra de Deus e dos ensinamentos da Igreja. Agora é indispensável o nosso compromisso, para que cada um seja instrumento de paz e artífice do diálogo.

Que Deus, nosso Pai, nos abençoe e proteja, e por seu Filho Jesus Cristo, caminhe connosco ao longo dos dias deste ano. Que Maria, Mãe de Deus e nossa mãe sempre nos ampare. AMEN.

Vila Real, 1 de Janeiro de 2020

+António Augusto de Oliveira Azevedo