Homilia – Ordenação de Presbíteros 2024

A Igreja diocesana de Vila Real vive hoje um dia de profunda alegria pela ordenação de dois novos presbíteros. Eles são um dom precioso de Deus em favor do seu povo peregrino. Foi Deus que os chamou e pelo seu Espírito os vai consagrar com a unção sacerdotal e enviar como verdadeiros discípulos de seu Filho, Jesus Cristo. A pessoa de Jesus e a missão que Ele iniciou são, de facto, o fundamento e a razão de ser desta celebração e do ministério que nela principia.

No relato do evangelho, Jesus identifica-se a si próprio como profeta. Profeta que, como outros antes dele, conheceu a incompreensão e o desprezo por parte dos seus. A incapacidade dos nazarenos para reconhecerem o mistério que se manifestava na pessoa de Jesus, a sua falta de fé para perceberem que o Filho de José era o Messias, impediu que ali acontecessem sinais da novidade de Deus. Faltou a fé que levou tantos a aproximarem-se de Jesus, como Jairo e a hemorroísa, e tantos doentes e pecadores. Esses, por causa da sua fé, foram atendidos.

Á imagem de Jesus, a vida e ministério do Padre tem uma dimensão profética. As promessas feitas no dia da ordenação, nomeadamente a obediência e cooperação com o Bispo, a consagração da sua vida a Deus pela salvação dos homens, a somar à do celibato, feita na ordenação  diaconal, são expressões do caráter profético da vida sacerdotal. O Padre é sinal de Deus, anunciador da boa nova divina, é mediador, dispensador dos mistérios sagrados para santificação do povo.

Pela sua ação, pelo seu testemunho e forma de viver, o Padre é profeta para o mundo de hoje. Este é um tempo carente de profecia e de esperança. Não pode ser um tempo de resignação, de cedência ao cinismo ou de trincheiras. Aos padres pede-se coragem profética, ousadia criativa, perseverança (resiliência) no anúncio da esperança que vem de Deus.

Esta missão bela e atraente, confronta-se tantas vezes com uma realidade com traços semelhantes àqueles que Jesus experimentou em Nazaré. A atual cultura mediática também é propensa a sobrevalorizar as opiniões e a negligenciar a verdade; a iludir-se pelo superficial e pelo espetáculo, esquecendo o que é profundo, valioso e permanente; a precipitar-se no uso de rótulos e estereótipos, não dando espaço à manifestação da originalidade e autenticidade de cada pessoa. A falta de fé é incapacidade de ver a realidade, de olhar para o outro, de se fechar ao mistério de Deus. Essa é a falta de fé do nosso tempo. Como Jesus, os discípulos de hoje, são desafiados a não desistir, continuar o caminho, lançar de novo as redes, porventura noutras direções.

Num contexto complexo como aquele que vivemos, a missão do Padre continua a ser indispensável porque é necessário que alguém fale de Deus, que alguém seja sinal e testemunho do seu amor. Para isso não podemos cair na “normalização”, no fazer do Padre um homem como os outros. Seria perder aquilo que o diferencia, seria como o sal sem força ou lâmpada sem luz. Este tempo continua a precisar de padres como homens de Deus, ao serviço do povo, profetas da esperança, anunciadores do Reino com alegria, capazes de falar de Deus causando admiração e encanto nas pessoas.

O ministério do presbítero é sagrado e grandioso, a sua missão é bela e exigente. Como São Paulo, importa que não nos deixemos tomar pela soberba mas reconheçamos  as nossas fraquezas e dificuldades. Nos dias que correm, algumas das dificuldades que, em geral, afetam os presbíteros, estão associadas a uma sobrecarga de trabalho pastoral, geradora de cansaço, a situações de algum isolamento e solidão, bem como a carências mais espirituais.

À imagem do apóstolo Paulo é necessário identificar esses espinhos que nos fazem sofrer e confiar que a graça recebida na ordenação é a nossa grande força. Ela nos assegura que o Senhor nunca abandona aqueles que chama. Ele é o pilar insubstituível da vida sacerdotal, renovado e ativado por uma intensa vida espiritual, alimentada na oração diária, por uma profunda vivência eucarística, sem esquecer a confissão e as propostas de apoio espiritual, como as recoleções e retiros. Estes meios ajudarão a superar as nossas fragilidades humanas, acolhendo a força que o Senhor nos comunica.

Para uma vida sacerdotal mais feliz, mais fecunda e saudável outros meios e propostas poderão ser úteis. Porém o que não é aconselhável nem prudente é fechar-se sobre si próprio, remeter-se a uma autoreferencialidade estéril, esconder ou negar as dificuldades. Vencer o orgulho e reconhecer as fragilidades é a primeira condição para as ultrapassar. A vida do sacerdote, como aconteceu com São Paulo, também pode passar por situações de afrontas, adversidades e angústias, mas somos fortes porque em nós «habita o poder de Cristo».

As mudanças sociais e culturais das últimas décadas, o crescente envelhecimento da população e desertificação de alguns territórios, sobretudo na nossa região, impõem algumas adaptações na organização eclesial. Ela é urgente, dada a carência de vocações sacerdotais. São desafios novos que exigem respostas ousadas e criativas, e que terão implicações várias, nomeadamente no diz respeito à vida e missão dos sacerdotes.

Um dos aspetos mais importantes, em sintonia com a mais recente reflexão da Igreja, é o da renovação do ministério do Padre segundo um estilo mais sinodal. Na sua essência, o ministério não é um direito ou privilégio pessoal nem o seu exercício depende da sua arbitrariedade ou  capricho próprio. O ministério é dom de Deus, acolhido na Igreja para serviço do Povo de Deus. Para isso o presbítero deve caminhar com o seu povo, deve ser o pastor que a todos congrega na unidade de uma família em que todos caminham em direção à casa do Pai.

O exercício do ministério implicará, cada vez mais, a capacidade de trabalhar em conjunto, seja com o restante presbitério, seja com os leigos. Precisamos de uma nova cultura pastoral, isto é, de operar uma conversão pastoral, como tem insistido o Papa Francisco, em estilo sinodal, favorecendo a partilha, o diálogo e a entreajuda pastoral. É fundamental uma maior colaboração entre os sacerdotes e uma maior colaboração com os leigos. Não pode haver concorrência entre ministérios nem sobreposição. O reconhecimento e valorização dos vários ministérios, sejam os ordenados (presbíteros e diáconos), sejam os ministérios laicais,  resultará num enriquecimento mútuo. Assim se poderá gerar uma Igreja mais viva com comunidades mais participativas e dinâmicas. Daqui advirá uma vivência mais rica e estimulante do ministério sacerdotal.

Neste tempo novo precisamos, ainda mais, de caminhar junto para renovar a esperança. Esperança que hoje se confirma com a ordenação dos diáconos Daniel e Cristiano. Esperamos que sejam servidores dedicados desta igreja diocesana, anunciadores e testemunhas alegres do evangelho de Jesus Cristo e pastores fiéis do povo de Deus que lhes será confiado.

Que Maria, Nossa Senhora da Conceição os acompanhe e proteja. Deus, pela força do seu Espírito aos novos e a todos os sacerdotes encha de bençãos, bem como a todos os batizados na Páscoa de Cristo

 

Vila Real, 7 de julho de 2024

+António Augusto de Oliveira Azevedo

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