Solenidade da Epifania do Senhor

        A celebração da Epifania ajuda-nos a descobrir e a viver toda a dimensão do Natal. O menino Jesus nascido em Belém manifesta-se com a luz para todos os povos. Os Reis Magos que o encontram e adoram no presépio simbolizam as nações que caminham à sua luz.

        Desta forma, como nos lembrava São Paulo no trecho da Carta aos Efésios, foi-nos dado a conhecer o mistério de Cristo, que nos revelou que «os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa em Cristo Jesus». A luz do mundo que começou a brilhar em Belém destina-se a iluminar todos os povos e a salvação dada por Deus a partir da encarnação do seu Filho destina-se a toda a humanidade.

        O Evangelho de hoje acentua que a descoberta desta luz nascida em Belém, implica que se faça um caminho. Aqueles Magos vindos do Oriente mostram-nos os vários passos desse caminho. Em primeiro lugar foram capazes de olhar as estrelas, perceber que despontava uma especial, única e fascinante e de deixar a sua terra partindo na aventura de ir até onde ela os conduzisse. Esta atitude, tão importante em tantos aspetos da vida, é essencial no percurso da fé. O crente de hoje começa por ser um buscador, alguém capaz de querer saber mais, procurar respostas.

Por outro lado os Magos confirmam que a busca deve ser acompanhada pelo discernimento de perceber o valor de cada coisa (estrela). Na sociedade de hoje multiplicam-se as estrelas, porém com duração cada vez mais efémera, reduzidas a cometas que deixam um rasto de luz passageiro. Verifica-se ainda a tendência que levar as pessoas a cair na ilusão de pensar que a vida só tem sentido se forem estrelas. Os Magos, apesar do lugar de destaque que teriam, tiveram a humildade de reconhecer a verdadeira estrela, aquela cujo brilho não se apagava e a coragem de deixar tudo para a seguir.

O Evangelho não esclarece as incidências ou dificuldades do caminho, referindo apenas que os Magos pediram ajuda em Jerusalém, perguntando onde estaria o Rei dos Judeus acabado de nascer. A resposta constava das Escrituras e foi preciosa para que chegassem a Belém. Mas esta referência permite-nos também refletir na razão pela qual Herodes e os poderosos do tempo não se alegraram com aquele nascimento, não se abriram aquela luz divina. Ao contrário dos Magos, eles não fizeram caminho, ficaram no palácio, instalados no seu poder e acomodados no seu saber. Nos nossos dias, a par de tanta gente em busca, persistem ainda no mundo (e na Igreja) tantas lógicas de manutenção do poder a todo o custo e de enquistamento em saberes que não se deixam questionar. Parece que a vida daquele Menino continua hoje a meter medo ou a incomodar (e não é aos pobres ou aos que o buscam!). Importa por isso estar advertido contra palavras ambíguas e atitudes cínicas.

O momento central e decisivo é o do encontro com o Menino no presépio. Os Magos prostraram-se, adoraram-no e ofereceram-lhe presentes, reconhecendo-o assim como verdadeiro Deus e Senhor. Atingiram o objetivo do seu caminho, experimentaram a alegria única do encontro e agora não vão precisar mais da estrela porque encontraram a luz que é Cristo e o levaram no coração. Por isso puderam fazer um caminho novo de regresso a casa.

Esta solenidade confirma que todos os que procuram, encontram, os que se põem a caminho e descobrem o rosto autêntico do Filho de Deus recebem uma luz que jamais se extingue. O Filho de Deus, nascido em Belém, veio a morrer na cruz e ressuscitar. Aqueles que se abriram à luz pascal não mais pararam de ir em missão de Jerusalém até aos confins da terra. É esta a nossa missão, hoje. «Sempre a caminhar, nunca desenraizados».

Vila Real, 5 de Janeiro de 2020

+António Augusto de Oliveira Azevedo