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Homilia – Missa Crismal 2022

«O Espírito do Senhor está sobre mim porque Ele me ungiu…».

Esta revelação de Jesus na sinagoga de Nazaré é essencial para entender o percurso que o conduziu até à Páscoa. Ele apresenta-se como o Ungido, o verdadeiro Messias enviado a anunciar a Boa Nova aos pobres. No início do caminho que o levaria da Galileia a Jerusalém, Jesus manifesta plena consciência da sua identidade e missão divinas. E a concluir aquela liturgia judaica, sublinha de modo simples mas eloquente, a atualidade do seu cumprimento.

Ao entrarmos no tríduo pascal em que celebramos os momentos culminantes da vida de Jesus e também decisivos da história da nossa salvação, o evangelho convida-nos a aprofundar o sentido do percurso da vida de Cristo, a motivação dos seus gestos, a razão da sua palavra. A Páscoa é momento supremo deste caminho, evento iluminador sobre a verdade da mensagem e aferidor da fidelidade à missão. As palavras ditas em Nazaré evocam e cumprem as palavras do profeta e serão levadas ao seu pleno cumprimento na Páscoa.

Para nós, reunidos esta manhã nesta Catedral, a palavra bíblica lembra-nos que somos um povo sacerdotal, constituído por aqueles que foram ungidos no Batismo e na Confirmação com o sagrado óleo do crisma (precisamente consagrado na celebração de hoje). Evoca ainda a todos os sacerdotes o dia solene da ordenação em que recebemos a unção sagrada. O Senhor Jesus, Ungido pelo Espírito e enviado pelo Pai, escolheu e chamou cada um de nós pelo seu nome e confiou-nos este sagrado ministério.

Esta Missa Crismal tem um forte sentido sacerdotal. Segundo uma bela e antiga tradição, o clero diocesano reune-se na Catedral para renovar as suas promessas sacerdotais e para dar graças a Deus que, pela vida e ação dos presbíteros, continua a assistir o seu povo e o enchê-lo de bençãos. Em cada um de nós, sacerdotes, há de estar bem enraizada a consciência do tesouro que representa o ministério, do seu valor sagrado, sem descurar que o transportamos em vaso de barro, isto é, de que somos humanos, frágeis e limitados.

Uma vez que o evangelho acentua a identidade de Jesus no início da sua vida pública e a confirma na sua entrega na cruz, esta é ocasião oportuna para aprofundar a nossa identidade sacerdotal. Os tempos que vivemos requerem uma consciência mais clara dessa identidade e um esforço de purificação no nosso modo de ser e viver como padres. Acerca deste ministério é necessária uma reflexão contínua de forma a superar algumas ambiguidades recentes e de advertir, como tem feito o Papa Francisco, contra o risco de um anacrónico clericalismo.

Um sacerdote para este tempo terá como referência central a pessoa de Jesus, o seu modo de viver, de se relacionar com o Pai e com a humanidade, com os homens e as mulheres, os doentes, os marginalizados, os que buscam e precisam de um autêntico sinal de Deus. A configuração da nossa identidade faz-se pelo seguimento do Mestre, como discípulos na escola da sua palavra, na docilidade à ação do Espírito e na comunhão com a Igreja. As velhas seguranças assentes no poder, no estatuto social ou no bem estar material, estão definitivamente caducadas. A nossa força, refúgio, segurança e inspiração é o Senhor Jesus Cristo, morto e ressuscitado.

A situação que hoje vivemos exige, por isso, o consolidar de motivações e o rever de estilos e atitudes. Antes de mais mantenhamos a alegria de ser padres e a confiança naquele que nos ama, Ele que é «o Alfa e Ómega» da história e das nossas vidas. Não nos deixemos abater pelas dificuldades ou ceder ao desânimo ou conformismo. Pelo contrário, sintamos que estes tempos são desafiantes, propícios para quem quer viver evangelicamente à maneira de Jesus. Assim como Ele, fiel à promessa do Pai sobre o Messias, a concretizou de forma original e surpreendente, também hoje é imperioso recriar o modo de ser e viver o sacerdócio, na fidelidade ao essencial.

Nesta celebração da Missa Crismal em quinta feira santa, à imagem de Jesus, o Messias de Deus, que cumpriu a missão até ao fim, somos convidados a refletir sobre a identidade sacerdotal na sua articulação com a missão. De facto, a nossa missão sacerdotal entende-se como continuidade e atualização da de Jesus Cristo. Fomos, também nós, ungidos para «anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a redenção aos cativos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor». Esta palavra não pode deixar de ser cumprida hoje.

Nos nossos dias, a Boa Nova da salvação precisa de ecoar, de se fazer ouvir, no meio de notícias de guerras, conflitos e desumanidades. No mundo à nossa volta há gente presa na miséria, na opressão; há pessoas cativas da solidão, do ódio e da maldade; há populações carentes de bens essenciais, bem como de liberdade e de paz; há uma humanidade a precisar de descobrir que a graça, o perdão e a misericórdia de Deus, manifestadas na Páscoa de Cristo, são mais fortes do que as desgraças de que são vítimas. Ser padre é acreditar na urgência desta Boa Nova e fazer da sua vida um dom total ao serviço do seu anúncio e testemunho.

Uma condição indispensável para que essa missão recebida de Cristo seja fielmente cumprida hoje, é a da comunhão com a Igreja. A missão foi confiada a toda a Igreja, pelo que atitudes de autossuficiência, isolamento ou autorreferencialidade são armadilhas que conduzem ao  definhamento e fracasso do ministério. Como o ramo não pode crescer e produzir fruto separado da árvore, também um cristão e um ministro da Igreja não pode dar fruto desligado de Cristo e da sua Igreja. O seguimento de Cristo no ministério sacerdotal concretiza-se na disponibilidade para servir a Igreja em comunhão com o Bispo e  na plena inserção num presbitério.

A fiel concretização da missão sacerdotal é favorecida pelo encarnar numa Igreja Local, em comunidades concretas com pessoas reais. O serviço à missão implica o assumir das raízes, o amor a um povo concreto, a paixão de ser Povo de Deus. Neste ano jubilar do centenário da nossa diocese, cada um é chamado a tomar uma consciência mais viva daquilo que tem dado e recebido desta Igreja diocesana, do modo como o presbitério e as comunidades ajudaram a configurar a sua identidade pessoal e sacerdotal.

 Finalmente, a realização  da missão  que incumbe ao sacerdote nos nossos dias deve assumir um estilo sinodal e fraterno. A fase preparatória do próximo Sínodo dos Bispos, constitui uma oportunidade para que também os sacerdotes sintam a necessidade de desenvolver um estilo mais sinodal, próximo e acolhedor. De facto é urgente cultivar uma atitude pastoral que promova cada vez mais a participação de todos os membros da Igreja, um estilo fundado na escuta, que privilegia a partilha e procura envolver mais as pessoas nas iniciativas e nas decisões. Afinal a Igreja, comunidade de batizados, é a verdadeira protagonista de toda a pastoral, o sujeito da missão.

Neste tempo histórico que temos a graça de viver, cheio de dificuldades, incertezas e preocupações, confiemos naquele que soube ser fiel até ao fim, «Aquele que é, que era e que há de vir, o Senhor do universo». Invoquemos Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Padroeira, para que interceda pela Paz no mundo e proteja esta diocese, o seu clero e leigos, famílias e comunidades. Que Deus a todos abençoe e conceda os dons do seu Espírito.

Vila Real, 14 de abril de 2020

+António Augusto de Oliveira Azevedo