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Homilia – Celebração do Centenário da Diocese

A Diocese de Vila Real celebra hoje o dia centenário da sua criação. Ao longo de todo o ano jubilar e, de modo especial, neste dia, queremos dar graças a Deus pelos dons com que enriqueceu esta Igreja ao longo deste século. A graça divina que nos foi dada em Cristo Jesus, usando a expressão de São Paulo, enriqueceu este povo de Trás-os-Montes e Alto Douro e tornou-o firme no testemunho de Cristo.

A Igreja teve a sua fonte no dinamismo da Páscoa e tem sido conduzida ao longo dos tempos pelo Espírito de Deus. Ela é constituída por homens e mulheres que, mergulhados pelo batismo na morte e ressurreição de Cristo, ousam viver segundo o seu Evangelho e trabalhar na construção do seu Reino. Em cada circunstância histórica e geográfica ela adquire um rosto concreto, e  na Igreja particular, como nesta de Vila Real, está e opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica, como ensina o Concílio.

Neste dia quero convidar todos a um exercício de memória, de uma memória grata pelos que serviram esta diocese. Começo por evocar os que me precederam na missão de bispos: D. João Evangelista de Lima Vidal, D. António Valente da Fonseca, D. António Cardoso Cunha, D. Joaquim Gonçalves, D. Amândio Tomás (felizmente entre nós). Cada um a seu modo e no seu contexto ajudou ao crescimento espiritual do povo que lhe foi confiado e deixou uma forte marca no clero e nos leigos.

A esta lista ilustre associamos um numeroso e dedicado presbitério que, em comunhão com o Bispo, servindo nas paróquias, no seminário ou nos diversos organismos e instituições, deu um contributo decisivo para que esta Igreja cumprisse a missão que o Senhor lhe confiou. De modo especial recordamos tantos sacerdotes com trabalho relevante na pastoral, na educação e outras áreas, mas sobretudo foram pastores que ajudaram ao crescimento espiritual de pessoas, famílias e comunidades. Olhando para o passado e observando o presente, é justo que a diocese manifeste reconhecimento, estima e consideração pelo clero que a serviu e serve.

Na memória grata destes cem anos importa sublinhar a colaboração inexcedível dos religiosos e religiosas que, desde  há muito, constituem uma riqueza na vida da diocese. O seu testemunho e o seu precioso contributo na vida pastoral e em tantos setores, como na área social e na educação, são expressão de uma Igreja aberta, plural e diversa nos carismas. É oportuno destacar ainda o número significativo de vocações à vida religiosa e missionária que tiveram origem nesta diocese.

Da mesma forma é relevante o facto de serem originários desta diocese vários dos atuais bispos portugueses: Cardeal D. António Marto, D. Manuel Linda, D. Gilberto Canavarro, D. António Montes Moreira, D. Amândio Tomás, todos felizmente aqui presentes. Não podemos esquecer também a contribuição de sacerdotes deste presbitério para Igreja portuguesa em vários cargos e funções. A estes poderemos acrescentar muitos leigos que, partindo para outras paragens, no país e no estrangeiro, participam ativamente na vidas das comunidades.

Ao longo destes cem anos os leigos tiveram um papel decisivo na vida da diocese. O seu empenho nas comunidades paroquiais, a sua inserção nos vários movimentos e a colaboração nas várias instituições sociais e educativas foram imprescindíveis para o dinamismo da diocese. Foi com todos, clérigos e leigos, que o Povo de Deus desta região percorreu este belo caminho, numa fidelidade à fé que se  traduziu tantas vezes numa grande  variedade e riqueza de tradições.

Sem entrar em considerações históricas (uma vez que o programa do centenário é rico em iniciativas com essa finalidade), no entanto poderemos dizer que após a fase da instalação da nova diocese com a organização das suas estruturas, as últimas décadas forma marcadas pelo empenhamento na renovação conciliar. O rosto atual da diocese apresenta traços de uma Igreja que procura responder aos desafios deste tempo. A par de um cristianismo enraizado que marca o ritmo de vida de famílias e comunidades, há, sobretudo nos meios urbanos, claros sinais de secularização e estilos de vida afastados ou indiferentes à fé.

Os desafios que se colocam hoje a esta região correspondem também a fortes preocupações da Igreja. O primeiro é sem dúvida o  do envelhecimento da população e a desertificação acentuada de algumas zonas. Acresce ainda a dificuldade de fixar as populações mais jovens, criativas e dinâmicas. A Igreja, tendo uma missão específica de cariz religioso, não deixa de estar atenta e colaborar na busca dos melhores caminhos para a bem deste povo. Ao longo destes cem anos deu provas de um inestimável contributo a esta região em áreas como o ensino, o setor social ou a saúde. A dificuldade atual é manter a sustentabilidade de muitas instituições e ter capacidade para responder aos novos problemas e formas de pobreza, como a solidão, fragilidades várias, acolhimento de migrantes.

O propósito que nos guia na celebração deste centenário está patente no lema: Crescer com raízes. De facto, como comunidade diocesana que reconhece a sua história e valoriza as raízes, precisamos de crescer na fé, de ser mais ativos e criativos na transmissão e formação na fé, mais participativos na sua celebração e empreendedores na caridade. Para que isso seja possível, o segredo é precisamente aquele que Jesus legou aos seus discípulos: «Permanecei no meu amor». Tornar mais forte o laço que nos une a Cristo e aos irmãos, guardar a sua Palavra e cumprir os seus mandamentos são condições indispensáveis para o crescimento na fé da pessoa, da família ou da comunidade cristã. Toda a vida e ação da Igreja encontra inspiração na docilidade ao Espírito Santo e sustento numa profunda espiritualidade de comunhão que nos una a Deus e aos irmãos.

A nossa região é única, abençoada por uma rara beleza natural e pela fertilidade das suas terras. Na videira, na oliveira ou no castanheiro, para que haja muitos e bons frutos, o ramo precisa de estar unido ao tronco e a árvore tem de ser cuidada. Assim também na vida cristã, pessoal e comunitária, para  frutificar temos de estar unidos a Cristo, temos de trabalhar para cultivar este campo que o Senhor nos confiou.

Em plena semana da Oitava da Páscoa, as palavras do Senhor Jesus, aquele que deu a vida pelos seus amigos, têm um impacto e uma credibilidade mais fortes. Ele que nos amou primeiro e nos considera como amigos, pode com legitimidade entregar-nos o mandamento novo: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei». Ele nos escolheu para sermos membros desta sua família, a Igreja, e nos destina e envia para que demos fruto que permaneçam.

Em dia de centenário, esta palavra de Jesus recorda-nos o essencial da natureza da Igreja, o seu modo de ser e a sua missão no mundo. Ela constitui uma motivação para que o futuro desta Igreja diocesana se construa sobre a base sólida da Palavra de Deus e da vivência do mandamento do amor. Nesse sentido, a comunidade cristã deverá ser cada vez mais um espaço familiar em que se experimenta a autêntica fraternidade. Numa sociedade onde se verifica uma forte tendência para o individualismo, a Igreja, os seus grupos, comunidades e movimentos devem aparecer cada vez mais como lugares de acolhimento, encontro e partilha.

Tendo presente e comungando com as preocupações e propósitos do Papa Francisco, na vida interna desta Igreja urge também aprofundar e exercitar uma autêntica sinodalidade. Este estilo sinodal supõe e exige uma maior participação dos leigos, o reconhecimento do lugar e papel de cada um e cada uma, a promoção de ministérios e serviços. O mandamento deixado por Jesus deverá ainda mobilizar esta Igreja diocesana para estar mais atenta aos pobres e descartados, mais solidária e acolhedora para com todos e mais sensibilizada na promoção de uma consciência ecológica que nos leve a cuidar da casa comum, em concreto deste património natural incomparável que é a região em que vivemos.

Nesta celebração festiva, agradecendo a presença de todos, a concluir, gostaria de deixar uma mensagem e manifestar um desejo. A mensagem dirige-se aos mais velhos, aqueles que fizeram e fazem parte desta bela história e a quem manifesto o meu reconhecimento e gratidão; aos mais novos, aos jovens que são o presente e o futuro desta diocese, apelo a que sintam que esta é a sua casa e a sua família e se comprometam a torná-la cada vez mais nova e atraente. Ao Clero renovo o meu agradecimento e a minha proximidade fraterna, lembrando que cada um é importante na comunhão presbiteral. Aos leigos de toda a diocese, onde se distinguem homens e mulheres de grande fé e dedicação à Igreja, apelo a que ponham a render as muitas capacidades que Deus concedeu para o bem comum. Às famílias, comunidades e instituições de âmbito diocesano apelo a que se renovem na fidelidade ao  seu compromisso e aprofundem o espírito de fé, unidade e comunhão.

Ao longo deste ano jubilar do centenário, o meu desejo e a minha prece é que cresça em todos o sentido de ser Igreja e Igreja diocesana. Que esta data festiva que é de todos e para todos nos faça crescer na alegria de ser cristãos, na paixão de ser Povo de Deus e a estar ao seu serviço na disponibilidade para sermos os discípulos missionários no mundo de hoje.

Celebrar cem anos pode representar um verdadeiro rejuvenescimento espiritual. Celebrar cem anos deve significar um novo fôlego, uma nova energia para sermos uma Igreja verdadeiramente pascal no século XXI.

Que Cristo Ressuscitado nos encha da sua alegria e da sua paz. Que Santa Maria, Nossa Senhora da Conceição continue a interceder por esta diocese de Vila Real e a proteger com o seu cuidado maternal todos os diocesanos.

Vila Real, 20 de abril de 2020

+António Augusto de Oliveira Azevedo