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Homilia – Ano Novo

        Na primeira celebração do ano, o essencial da nossa oração está traduzido nas palavras do salmista: «Deus se compadeça de nós e nos dê a sua benção». De facto trazemos no pensamento as dores e preocupações da humanidade para as quais invocamos a misericórdia divina mas não abdicamos de sonhos e projetos para o novo ano, pedindo que Deus nos abençoe e nos ajude a cumpri-los.

        A solenidade deste dia exalta a figura de Maria como Mãe de Deus. Esse é de facto o título que melhor define o seu papel determinante na história da salvação: ter dado ao mundo  a Jesus, o Messias Salvador. Solicitamos a sua intercessão maternal para toda a humanidade, para todas as famílias, para os mais fragilizados ou que passam maiores dificuldades. Peçamos ainda à Mãe de Deus que viveu intensamente os acontecimentos do Natal, guardando tudo em seu coração, que como nossa mãe nos ensine a viver com coração filial todos os momentos do ano que agora começa.

        A Igreja assinala hoje o Dia Mundial da Paz. É uma oportunidade para rezarmos pela paz e para avaliarmos como ela é condição decisiva para o nosso futuro pessoal e coletivo. Na sua mensagem, o Papa Francisco convida-nos em primeiro lugar a que permaneçamos «com os pés e o coração bem assentes na terra, capaz de um olhar atento sobre a realidade e os factos da história». De facto, de nada serve alimentar ilusões ou fechar-se «no medo, na dor ou na resignação, ceder à dissipação nem desanimar». O Santo Padre desafia-nos antes a «manter o coração aberto à esperança, confiados em Deus que se faz presente, nos acompanha com ternura, apoia os nossos esforços e sobretudo orienta o nosso caminho».

        Em qualquer circunstância histórica a atitude de um cristão é sempre de atenção e preocupação, é sempre construtiva e geradora de esperança, aberta a aprender com a realidade e a deixar-se inspirar por Deus. No momento presente, o Papa convida a humanidade a parar para se interrogar sobre o que aprendeu destes três anos de pandemia. Segundo ele, a maior lição é a de que «precisamos todos uns dos outros, o nosso maior tesouro é a fraternidade humana, fundada na filiação divina comum e que ninguém pode salvar-se sozinho».

        No trecho da Carta aos Gálatas, São Paulo insiste nesta temática central do cristianismo: «Deus enviou o seu filho, nascido de uma mulher para nos tornar seus filhos adoptivos». A fé incentiva-nos a viver com espírito de filho, não de escravo, convertendo o nosso coração a considerar o outro como nosso irmão. Crescer na fé implica o reforçar do sentido de fraternidade, de consciência de que Deus ama a todos e a sua herança, os dons que tem para nos dar são para todos.

        Voltando à traumática experiência que vivemos, o Papa acrescenta que dela aprendemos ainda que «a confiança posta no progresso, na tecnologia e nos efeitos da globalização não só foi excessiva mas transformou-se numa intoxicação individualista e idólatra, minando a desejada garantia de justiça, concórdia e paz». Esta avaliação aconselha uma profunda mudança de rumo, nomeadamente o regresso a uma atitude mais humilde, à adoção de estilos de vida mais sóbrios e frugais, com a diminuição de excessos consumistas que acentuam o delapidar dos recursos naturais do planeta. Recomenda acima de tudo o reforçar de uma solidariedade que não seja mera compaixão mas que se fundamenta no reconhecimento da dignidade do outro como nosso irmão.

        A palavra chave que sobressai do passado recente e deve ressoar mais fortemente na mente e no coração dos homens e mulheres de boa vontade, é a palavra JUNTOS. Só permanecendo juntos podemos construir um futuro de paz, mais justo e digno  para todos. Só juntos podemos responder eficazmente aos enormes desafios com que a humanidade hoje está confrontada. Só juntos podemos superar as graves crises que nos assolam: crise social, económica, política e sobretudo, moral. Esta última é a mais decisiva porque, como vemos todos os dias, sem respeito pelos valores e princípios éticos, a sociedade perde os seus pilares fundamentais, ficando entregue à lei do mais forte e do vale tudo. Estamos todos no mesmo barco, só juntos nos podemos salvar, só juntos chegaremos a bom porto.

        Se a experiência dos anos recentes tem muito a ensinar-nos, o eclodir da guerra na Ucrânia, a somar a vários conflitos noutras latitudes, veio acentuar os nossos motivos de preocupação. Desde logo porque se trata de uma guerra na Europa, o que nos faz sentir uma ameaça mais próxima e real. Por outro lado, o nível de crueldade e destruição, a imensidão dos dramas humanos tornou-se mais real e visível. A guerra, repete o Papa Francisco representa «a derrota para as partes envolvidas e a derrota para toda a humanidade».

        A cura para o vírus da guerra só pode ser a conversão do coração humano que leve à descoberta de que o bem comum deve prevalecer sobre interesses particulares, interesses de grupo ou de estados e à consciência de que a justiça, o direito devem ser respeitados e não suplantados pela arbitrariedade e pela força das armas. A cura para este vírus, também ela virá do reconhecimento dos direitos do outro, sobretudo do mais pobre e do mais frágil, e pela  perceção de que sem paz e harmonia social não há futuro digno do homem nem feliz.

        O Evangelho deste primeiro dia do ano descrevia com grande beleza e simplicidade o caminho dos pastores que vão ao presépio ver o Menino com Maria e José. Depois regressam glorificando a Deus, cantando a alegria daquele encontro com o Príncipe da Paz. Em tempo de Natal, junto do presépio encontremos a inspiração para que ao longo do ano sejamos verdadeiros instrumentos de paz. Em gestos e palavras, ousemos semear a paz em todos os lugares, em todos os momentos e com todas as pessoas com quem nos cruzarmos. Como os pastores, sintamos a alegria da fé, saboreemos a simplicidade da vida e em tudo glorifiquemos a Deus.

        O Senhor a todos proteja e abençoe durante o novo ano. Maria, Mãe de Jesus e nossa mãe, interceda para que vivamos mais autenticamente como filhos de Deus e nos relacionemos com todos como verdadeiros irmãos. Neste ano a paz chegue à Ucrânia e a outros países, lugares e famílias onde ela é tão necessária e urgente. Bom ano novo para todos.

Vila Real, 1 de janeiro de 2023

+António Augusto de Oliveira Azevedo