Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

Aquele primeiro dia da semana foi o início de um tempo novo. Tudo começou com a ida de Maria Madalena ao sepulcro, em que é surpreendida com os sinais da pedra removida e a ausência do corpo de Jesus. Ao apresentar os acontecimentos pascais desta forma, o evangelho deixa em aberto à imaginação tudo o que terá sucedido acerca da remoção da pedra e da ressurreição de Jesus, algo que ultrapassa a história. Mas ao mesmo tempo sublinha que a novidade pascal foi experimentada, em primeiro lugar, por aqueles que não se resignaram. Ainda pesarosa e triste pelo drama da morte de Jesus, aquela mulher vai logo de manhã visitar o sepulcro e fica espantada face ao inesperado. De facto, a novidade pascal está ao alcance, antes de mais, de quem não desiste ou abandona, baixando os braços diante dos fracassos. Saber resistir, saber esperar uma boa notícia após dias tristes, é uma atitude verdadeiramente pascal, também hoje. Atitude própria de quem tem fé, de quem acredita em Deus, mas também acredita no amor, na amizade, no melhor da vida.

A notícia do sepulcro vazio suscita alvoroço e provoca a curiosidade de Pedro e João que correm para verificar a sua veracidade. Nesta manhã de Páscoa, passados mais de dois mil anos, faz-nos bem sentir algum sobressalto e até estremecimento com a notícia da ressurreição de Jesus. É o acontecimento decisivo da história, anúncio e certeza de que o Senhor venceu a morte. Removendo a pedra daquele sepulcro, Deus valida a esperança de que todas as pedras podem ser removidas, todas as barreiras e muros derrubados.

O acontecimento da ressurreição de Jesus não é um acontecimento comum ou banal, nem pode sofrer o desgaste do tempo ou do hábito. É o grande acontecimento, a melhor notícia que poderemos ouvir, ainda hoje. Notícia ainda mais alegre e valiosa para nós que nos sentimos submersos por notícias diárias da tragédia que assola o mundo. Mesmo em tempos de pandemia precisamos de apreciar no ouvido e na voz: Cristo Ressuscitou, Aleluia.

Pedro e João, primeiras testemunhas da Páscoa, precisaram de ir correndo ao sepulcro para ver e acreditar. Em termos espirituais este é o movimento que cada um de nós é chamado a fazer: com coragem e prontidão abrir o coração e a mente, sair de si para se encontrar com um Cristo vivo e assim acreditar verdadeiramente. Como aqueles discípulos que não tinham entendido a Escritura, porventura nós próprios não tenhamos entendido ainda todo o alcance da ressurreição de Jesus. Hoje é dia de proclamar com alegria a nossa fé. Que esta Páscoa vivida no refúgio das nossas casas, na solidão para alguns ou no calor da família para outros, mas num contexto difícil para todos, seja especial, permitindo que cada um, no mais íntimo de si, veja e acredite, renovando e fortalecendo a sua fé no Cristo vivo.

O dinamismo pascal que decorre da liturgia deste dia parte da descoberta pessoal da fé que representa um verdadeiro renascimento. S. Paulo refere dois traços dessa vida nova: o afeiçoar-se às coisas do alto e dar-se conta que ainda não se manifestou a plenitude da nossa vida. Celebrar a Páscoa nas circunstâncias em que estamos, deve suscitar em nós este duplo efeito. Por um lado, libertar-nos de tantas coisas fúteis e efémeras a que estávamos agarrados e ajudar-nos a descobrir outros valores mais profundos e espirituais. Por outro lado, avaliarmos a nossa vida com outros critérios, percebendo que, passada esta provação, ela ainda será surpreendida com muitas graças de Deus.

A força do anúncio pascal manifesta-se no dinamismo de renovação que é capaz de operar em cada um e em cada família. De facto, a Páscoa não começou por ser um fenómeno de multidões, mas foi notícia irradiada, experiência testemunhada de pessoa a pessoa, que se constituíram depois em pequenas comunidades. A família é precisamente uma comunidade cristã básica, lugar privilegiado em que se testemunha e vive a fé cristã naquilo que tem de mais autêntico e genuíno. Faço votos e desejo que esta Páscoa seja uma oportunidade para que cada família se sinta mais unida na fé, em que todos (casais, pais, filhos e avós) sejam capazes de rezar em conjunto, de partilhar com alegria a sua fé, na consciência de que o Ressuscitado habita em cada lar, contribuindo para que a família seja mais forte no amor.

Nesta Páscoa renovemos a nossa fé em Cristo Ressuscitado. Que Ele a todos abençoe na paz. A sua vitória sobre a morte traga à nossa humanidade, nesta hora de sofrimento, a confiança para acreditar que este mal será superado e o seu Espírito a todos dê alento e coragem, sobretudo aos doentes, aos cuidadores e às famílias.

Cristo Ressuscitou. Aleluia! Santa Páscoa para todos.

12 de Abril de 2020

+António Augusto de Oliveira Azevedo

Bispo de Vila Real

Homilia – Páscoa da Ressurreição do Senhor

Homilia do Sr. D. António Augusto AzevedoPáscoa da Ressurreição do Senhor12 de Abril de 2020

Posted by Diocese de Vila Real on Sunday, 12 April 2020