Na manhã deste domingo de Páscoa os nossos corações são convidados a experimentar a mesma alegria que viveram as mulheres e os discípulos ao verem o sepulcro vazio. Com muitas assembleias de cristãos por todo o mundo proclamamos a feliz notícia da ressurreição do Senhor. Aquele que morreu na cruz e foi sepultado, ressuscitou e está vivo.
Segundo o evangelho de São João, Maria Madalena foi ao sepulcro ainda de noite e ficou surpreendida ao encontrá-lo vazio. De facto a experiência pascal foi marcada pela surpresa, pelo inesperado, por algo que supera todas as expectativas humanas. A noite interior daquela mulher que carregava ainda o peso da tristeza pela morte violenta de Jesus é iluminada pela novidade: a pedra fora removida e Jesus já não jazia no sepulcro.
A fé cristã tem o seu fundamento e a sua matriz no acontecimento da Páscoa de Jesus. Não resulta da conclusão de um raciocínio, da concretização de uma vontade ou de um plano humano. A nossa fé tem a sua origem na surpresa, no espanto face ao grande e inaudito sinal de Deus: libertar o seu Filho da morte, para com Ele e por Ele, abrir à humanidade a porta da vida. A partir daquela manhã, começou a brilhar uma nova luz de esperança para todos. Desde então as pedras mais pesadas que prendem tantos seres humanos ao sofrimento, à solidão, à morte, podem ser removidas.
A ressurreição de Jesus confirma que a intervenção divina representa a vitória da vida. Para Deus, a humanidade não está esquecida, irremediavelmente condenada ou perdida. A violência e o sofrimento não são a última palavra. A morte foi vencida; a esperança é possível.
Os discípulos, primeiras testemunhas da novidade da ressurreição e posteriormente das aparições do ressuscitado, foram capazes de dar o salto da fé: viram e acreditaram. À luz daqueles acontecimentos tudo o resto, toda a vida de Jesus, a vida de cada um dos seus seguidores ganhava outro sentido.
Todas as palavras que tinham ouvido a Jesus, todos os seus gestos extraordinários adquiriam pleno significado. A própria paixão e morte na cruz adquiriam outro sentido. A Páscoa irradia uma nova luz, projeta uma nova compreensão sobre as coisas de Deus e as realidades do mundo.
A celebração de cada Páscoa é ocasião para que cada cristão se reencontre com o essencial da fé, com todo potencial de esperança e humanidade que ela encerra. Nestes dias em que a força das armas semeia destruição e morte em tantas partes do mundo, em que os interesses dos poderosos descartam o património da cultura, do direito e da ética, a fé em Cristo Ressuscitado constitui desafio e provocação.
Para muitos crentes, a Páscoa desafia a acordar de algum adormecimento numa fé instalada, cómoda ou inócua. Convida a despertar para a urgência de uma fé mais viva, aprofundada, sem receios ou vergonhas, mas corajosa e desassombrada. Para os senhores do mundo, instalados no seu poder e na riqueza, a Ressurreição de Jesus constitui provocação porque manifesta que o inocente condenado, o que se entregou por amor, sem ódio ou violência, esse é o verdadeiro vencedor. O amor é a arma mais poderosa.
A todos nós que ressuscitamos com Cristo pelo batismo, que confessamos a nossa fé no ressuscitado, São Paulo convida a «aspirarmos» e a «afeiçoarmos às coisas do alto». A fé pascal ajuda-nos a não ficar soterrados ou sumergidos pela coisas do mundo mas a olhá-las noutra perspetiva, a de Deus.
Acreditar neste Deus que ressuscita o Filho suscita um outro gosto pela vida, uma nova afeição pela liberdade e pela paz. Num contexto global de encruzilhada, no meio de estratégias de polarização que usam todo o tipo de manipulação, a fé cristã está sempre do lado da promoção da vida humana, digna, pacífica e livre. De uma vida feliz no tempo e com esperança de eternidade, uma vida aberta a tantas oportunidades que Deus ainda para nos dar e revelar.
Os discípulos, junto ao sepulcro vazio viram, acreditaram e entenderam. A partir de então, Cristo passou a estar no centro das suas vidas e o testemunho da sua Páscoa no centro das suas preocupações. Pedro, homem simples e corajoso, apesar das suas contradições, após a experiência pascal e do dom do Espírito, tornou-se testemunha incansável de Jesus. Foi capaz de belos e fortes testemunhos de fé, como aquele que hoje escutamos. O apóstolo João, com maior sensibilidade, legou-nos o testemunho da profundidade interior da fé.
A fé dos cristãos que tem a sua génese neste testemunho dos apóstolos e transmitida de geração em geração, precisa de encontrar hoje um novo impulso e dinamismo. Este apelo é dirigido aos que foram batizados nesta Páscoa e a todos os que renovaram os seus compromissos batismais. Todos temos hoje a grande tarefa de dizer a fé, partilhar com o outro este grande tesouro. Não podemos reduzi-la a uma experiência fechada ou intimista, mas temos de ousar falar dela: os pais aos filhos, os amigos entre si, os jovens aos outros jovens. Como Maria Madalena, partilhemos o que nos enche o coração.
Da mesma forma, também no espaço público e mediático, demasiado ocupados com escândalos e futilidades, indutores de tristeza e descrença, é necessário maior abertura à dimensão da fé. Rompendo barreiras e superando preconceitos a mensagem da fé pascal pode chegar, também por estes novos meios, a muitos corações e renovar muitas vidas. A esses e a todos os lugares, começando pelas nossas casas, levemos a boa notícia da ressurreição de Jesus. Esse anúncio de que Ele está vivo e presente no meio de nós, trará consigo a alegria, a paz e a esperança num futuro novo que Jesus Ressuscitado a todos quer dar.
Uma Santa Páscoa para todos.
Vila Real, 5 de abril de 2026
+António Augusto de Oliveira Azevedo
Diocese de Vila Real Diocese de Vila Real