63.º Encontro Nacional de Catequese decorreu na Diocese de Aveiro

Mistagogia no centro da renovação da catequese em Portugal

A Diocese de Aveiro acolheu, de 8 a 10 de abril de 2026, o 63.º Encontro Nacional de Catequese, que reuniu cerca de 90 responsáveis diocesanos de todo o país, incluindo da Diocese de Vila Real, para refletir sobre a mistagogia e o caminho de iniciação à vida cristã.

Sob o tema «A Mistagogia: Caminhar com Cristo, do encontro ao discipulado. “Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no” (Lc 24, 31)», o encontro inseriu-se no processo de renovação da catequese em Portugal.

Igreja é chamada a “voltar a uma lógica de mistagogia”

Na abertura dos trabalhos, o presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, D. António Augusto Azevedo, afirmou que a Igreja deve “voltar a uma lógica de mistagogia” no processo catequético.

“O Itinerário para a catequese é claro na necessidade de recuperarmos este bem para o processo de introdução à fé dos mais novos para que se passe da lógica escolar, onde se aprendem muitos conteúdos, para o tempo de caminho, de descoberta do mistério e do encontro”, afirmou.

Aos cerca de 90 responsáveis pela catequese nas dioceses de Portugal, o presidente da CEECDF agradeceu “o grande número de participantes” no Encontro Nacional de Catequese, sustentando que isso “é um sinal claro do empenho da Igreja em Portugal neste setor”.

“Estarmos em tão grande número, assinalando já a edição 63 deste Encontro Nacional, percebemos subjacente um grande dinamismo, que se vai mantendo, atualizando e procurando novos caminhos para dizer a fé na necessária atualização de linguagem aos tempos que vivemos”, sustentou.

Catequese deve passar do conteúdo à experiência e unir “coração e caminho”

Seguiu-se a conferência «O hiato entre o coração e o caminho – Redescobrir o sentido mistagógico da iniciação cristã», pelo padre José Miguel Cardoso, sacerdote da Arquidiocese de Braga e colaborador do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano.

O padre José Miguel Cardoso defendeu que a catequese deve ir além da simples transmissão de conteúdos e tornar-se uma experiência transformadora de vida. Partindo da análise de uma pintura que retrata um jogo de xadrez entre o diabo e um jovem, o sacerdote explicou que “a pintura nem é sequer sobre o jogo, mas é sobre aquilo que nós somos, que é uma metáfora da vida”, sublinhando que, apesar da aparente derrota do jovem, “resta-lhe ainda uma jogada” e que “a sua vida não é uma história de pecados, mas é uma história de salvação”.

Neste contexto, definiu a catequese como “um encontro que visa dar competências humanas e espirituais, tendo Cristo como modelo de vida”, acrescentando que procura “transmitir uma sabedoria que nos permite vencer no xadrez da vida”. Distinguindo entre catequese querigmática e mistagógica, afirmou que, enquanto a primeira “visa transmitir um conteúdo”, a segunda procura “dar um passo em frente”, ou seja, “transmitir uma experiência”, permitindo ao crente “ler e entender a sua vida à luz da fé”.

Ainda assim, alertou que muitos projetos pastorais falham não por falta de conhecimento ou empenho, mas porque se ignora quem está do outro lado: “As escolhas falham muitas vezes porque nós esquecemos deste detalhe: compreender o destinatário que está à nossa frente”.

Pós-modernidade, relativismo e novas formas de espiritualidade

Na sua análise da sociedade atual, marcada pela pós-modernidade, o padre José Miguel Cardoso destacou o crescimento do relativismo e da subjetividade, afirmando que “a verdade já não vale pela sua força argumentativa, mas é subjetiva: eu é que sei qual é a minha verdade”.

Apontou também para a emergência de uma espiritualidade desligada da religião institucional, referindo que “hoje passamos de uma religião institucionalizada a uma religião ‘self-service’”, onde “pensa-se Deus a partir da emotividade”. Entre as consequências, indicou a redução da fé ao moralismo e a separação entre fé e vida, sintetizando: “fazemos uma vida sem teologia e uma teologia sem vida”.

Neste cenário, considerou que vivemos “uma nova forma de ateísmo”, em que “as pessoas já não acreditam naquele Deus transcendente, mas acreditam nos ídolos que o mundo produz”.

A fé como caminho, pergunta e dinamismo

O sacerdote sublinhou ainda que a fé deve ser entendida como um processo dinâmico, afirmando que “a fé não é uma certeza absoluta, mas é uma pergunta permanente. Não é uma meta, mas é um caminho”.

Para ilustrar esta ideia, recorreu à figura de São Pedro, na qual identificou diferentes formas e etapas da fé, mostrando que “nem todos têm de acreditar ao mesmo tempo, da mesma forma e pelas mesmas razões”.

Na parte final da intervenção, deixou orientações práticas para a catequese, defendendo uma pedagogia progressiva inspirada no caminho de Emaús: “Se a fé é descoberta e não imposição, a catequese deve ser caminho e não doutrinamento”.

Alertou também para três tentações atuais — “os números”, “os foguetes” e “os likes” — criticando a preocupação excessiva com resultados imediatos, eventos pontuais ou a necessidade de agradar. Por fim, destacou que, num mundo marcado pela tecnologia, há uma dimensão insubstituível: “Na era da tecnocracia e da inteligência artificial, há algo que não se conseguirá replicar: a mistagogia do coração”, concluindo que “precisamos de formar a razão e o coração” e que “só uma catequese da narrativa, do caminho, tem futuro”.

Mistagogia como caminho de encontro e acompanhamento

Já o padre Juan Freitas, salesiano, na sua conferência «A Mistagogia: Caminhar com Cristo, do encontro ao discipulado», sublinhou que a mistagogia deve ser entendida acima de tudo como “uma experiência de acompanhamento e descoberta”, centrada no encontro pessoal com Cristo.

“A mistagogia é isto de acompanhar ao encontro, é esse descobrir Cristo na nossa vida”, afirmou.

O sacerdote salesiano defendeu que o acompanhamento das novas gerações exige uma sólida formação pessoal, académica e comunitária, destacando o papel do catequista como alguém que vive profundamente a fé que transmite. “O catequista mistagogo é aquele que vive de forma séria a sua fé e que, a partir da sua própria experiência de encontro com Cristo, ajuda os outros a compreender o mistério da vida cristã”, explicou.

Segundo indicou, esta missão assenta em duas dimensões essenciais: o testemunho e a interpretação. “Por um lado, o catequista é chamado a dar testemunho de um encontro pessoal com Cristo que anima a sua vida; por outro, deve ajudar quem acompanha a compreender o que é este mistério, o que é esta vida, o que são estes símbolos, o que é esta linguagem”, afirmou, sublinhando que este processo acontece sempre no seio da comunidade cristã.

Mistagogia não é moda, mas tradição viva da Igreja

Ao longo da intervenção, o conferencista insistiu que a mistagogia não deve ser vista como uma tendência recente, mas como uma expressão profunda da tradição da Igreja. “Esta dimensão mistagógica da catequese e da vida cristã não é uma moda”, afirmou, recordando que ao longo dos séculos diversos autores, Padres da Igreja e documentos eclesiais têm valorizado esta abordagem.

Acrescentou que esta redescoberta ganhou novo impulso com o Concílio Vaticano II e com documentos posteriores da Igreja, reforçando a necessidade de ligar a catequese à vida concreta. “É por aqui que a gente sente que é o pulsar da vida e que é necessária esta ligação da catequese à vida de cada um, à vida da comunidade, à liturgia, àquilo que acreditamos”, referiu.

Neste contexto, alertou para o risco de reduzir a fé ao conhecimento doutrinal, defendendo uma visão mais integrada. “É importante eu aprofundar a minha fé, é importante eu conhecer a doutrina, mas perceber que não é só isso”, disse, apontando para a necessidade de equilíbrio entre conhecimento, celebração, vida comunitária e experiência pessoal.

Emaús como modelo para o catequista mistagogo

Inspirando-se no episódio bíblico dos discípulos de Emaús, o padre Juan Freitas apresentou Jesus como modelo do catequista mistagogo: “Jesus põe-se a caminho com estas pessoas”.

Destacou, assim, um itinerário pedagógico marcado por várias etapas — aproximar-se, acompanhar, escutar, questionar, anunciar, conduzir à celebração e saber retirar-se — como chave para a missão catequética atual. “É bonito ver esta gradualidade que Jesus tem neste caminho e que é o caminho da nossa vida, que é o caminho da Igreja”, afirmou, acrescentando que o grande desafio é “acender corações, como fez Jesus”.

Na parte final da conferência, o sacerdote reforçou a importância da ligação entre catequese e liturgia, defendendo que a formação cristã não pode ficar limitada ao espaço da sala. “A vida de um cristão que nós queremos formar não pode ser só dentro da sala da catequese, a vida tem que ser uma experiência de comunidade”, sublinhou, recordando que a liturgia é “fonte e cume” da vida cristã.

Para ilustrar esta visão, recorreu à imagem do papagaio de papel como metáfora do percurso de fé. “O catequista é este que ajuda que o papagaio voe”, explicou, detalhando que a estrutura representa os fundamentos da fé, o papel simboliza a abertura ao mistério, o fio a ligação à comunidade e a cauda a tradição da Igreja. “É importante termos uma coluna vertebral que nos dá estabilidade”, concluiu, destacando que só uma fé enraizada e vivida em comunidade permite “um voo bonito, um voo de vida”.

Na Eucaristia final, apelo a “lançar de novo as redes”

Na Eucaristia de encerramento, D. António Augusto Azevedo sublinhou que toda a missão catequética deve ser vivida em comunhão com a Igreja e fundada na consciência de que é Deus quem chama e envia.

“Em nome do Senhor e em comunhão com toda a Igreja. (…) Sabermos que não vamos a título próprio”, afirmou, explicando que o trabalho nas paróquias e na catequese ganha uma dimensão diferente quando assenta nesta convicção: “É o Senhor que nos chamou e que nos envia”.

Inspirando-se na imagem evangélica da pesca abundante, retratada no Evangelho do dia, o bispo de Vila Real destacou que a missão cristã exige abertura à ação de Deus e confiança nos seus frutos: “Quando nos abrimos àquilo que são as inspirações do Senhor e do seu Espírito, certamente que os resultados, no tempo próprio, na medida própria, passarão a acontecer”.

Neste sentido, apelou à confiança como atitude fundamental no trabalho pastoral: “O Senhor nos chamou e nos envia, (…) é Ele que nos desafia, também, a hoje lançar uma nova rede”. Para o responsável, esta imagem traduz o desafio permanente da Igreja em cada tempo histórico: “Em cada geração, em cada tempo, em cada contexto cultural, social ou outro, é necessário (…) lançar a rede”.

Recorrendo à metáfora do pescador, sublinhou a perseverança necessária na missão: “O pescador sai todas as manhãs para a pesca, qualquer que seja o estado do tempo”, exemplificando que também os catequistas são chamados a recomeçar continuamente, confiando sempre no Senhor.

Referindo-se aos desafios atuais da Igreja, evocou também o apelo do Papa Francisco a uma renovação missionária, afirmando que o tempo presente exige coragem e esperança: “É necessário voltar a lançar as redes, confiando no Senhor e confiando que vale a pena”.

Apesar das dificuldades e limites do trabalho pastoral, destacou que os frutos ultrapassam frequentemente as expectativas humanas: “No balanço final, importa ter a consciência de que [o resultado] supera sempre muito das nossas expectativas”.

Eucaristia como fonte e meta da missão catequética

Na parte final da homilia, D. António Augusto Azevedo destacou a centralidade da Eucaristia como lugar de encontro com Cristo e fonte da missão. “O nosso trabalho na catequese (…) é sempre encontro à volta da mesa, à volta da Eucaristia”, afirmou, sublinhando que é aí que os cristãos são alimentados e enviados.

Por fim, deixou um apelo aos catequistas e a todos os envolvidos na missão educativa da Igreja para que orientem o seu trabalho para este encontro com Cristo, capaz de despertar vocações e compromisso: uma catequese que conduz à comunhão e à missão, sustentada pela certeza de que “Jesus está também connosco e nos envia sempre em missão”.

 

Sahifa Theme License is not validated, Go to the theme options page to validate the license, You need a single license for each domain name.