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Homilia – Natal do Senhor 2022

        Neste dia solene de Natal cantamos com todos os crentes, com os homens e mulheres de boa vontade, a glória de Deus que se manifestou no nascimento de Seu Filho em Belém. Este acontecimento assinala algo de novo e inaudito na história. Deus a quem ninguém viu foi dado a conhecer por seu Filho. De facto, desde o seu nascimento, Jesus é a presença humana do Deus eterno.

        A reflexão sobre o mistério do Natal é guiada, na liturgia de hoje, pelas palavras de São João no prólogo do seu evangelho. Elas convidam-nos, antes de mais, a um sentimento de admiração e louvor porque o «Verbo fez-se carne e habitou entre nós». A encarnação, o assumir uma carne humana, é a nova forma de Deus falar, sem dúvida a mais ousada e surpreendente porque nos obriga a pensá-lo, a vê-lo e recebê-lo de outro modo.

        No presépio encontramos a primeira expressão da nova linguagem de Deus. O quadro, tendo no centro a criança recém nascida, acompanhada por Maria e José, num ambiente de carência material mas de grande calor humano, é um hino à humanidade e à novidade divina. Naquele lugar fala a força da vida no corpo frágil de uma criança, transparece a verdade e autenticidade dos gestos, brilha a beleza do amor no rosto do filho e no coração dos pais. Na finitude da vida, nos limites das expressões humanas, fala de modo paradoxal mas eloquente o infinito, o eterno, o santo.

        O nosso Natal poderá ser mais rico e profundo se formos capazes de, contemplando o rosto de Jesus Menino, aprendermos a ver Deus de outra forma. Em Jesus, Deus habita entre nós, sendo, por isso, uma presença sempre próxima, um coração ardente onde há lugar para cada um e para todos, uma mão amiga e protetora.

 Esta experiência de um novo olhar sobre Deus desafia-nos também a um olhar diferente sobre a humanidade. Precisamos de redescobrir o encanto da vida humana, o tesouro que constitui a vida de cada pessoa. Precisamos de encarar de frente o rosto da fragilidade presente nos mais pobres, doentes e idosos. Nesta humanidade ferida se apresenta também hoje, diante de nós, o rosto autêntico de Deus que se fez homem.

A vivência do Natal, além de nos convidar a escutar a Deus que fala à humanidade pelo seu Filho e a ver naquela criança nascida em Belém a sua presença nova, desafia-nos a recebê-Lo e acreditar nele. O dinamismo da fé cristã não se limita a uma ritualidade externa e repetitiva mas interpela-nos a acolher Jesus Cristo nas nossa próprias vidas e a acreditarmos que essa presença pode ser renovadora para cada um e para todos.

Acolher hoje a Jesus Cristo significa receber a vida que do céu veio ao nosso encontro e nos enche de graças e assim reforçar a nossa fé de que Deus não desistiu da humanidade mas tudo faz para a salvar. Recebê-lo em cada coração, em cada casa ou comunidade, deverá constituir um estímulo e motivação para uma nova atitude relativamente ao acolhimento dos nossos irmãos mais frágeis. Não os podemos abandonar à sua sorte, não podemos cair na indiferença, no egoísmo ou comodismo.

O Natal não pode ser uma festa para nos distrair daquilo que importa mas para nos concentrar no essencial sobre Deus e o homem. A sua mensagem de matriz religiosa é cheia de humanidade e contém grandes desafios para que a sociedade de hoje não vacile na defesa e promoção dos valores fundamentais.  Nesse sentido, se desejamos um futuro mais humano e luminoso urge mobilizar todos os esforços e meios ao serviço da valorização da vida, do respeito pela dignidade humana, reforçar o cuidado pelos doentes, os mais pobres e os migrantes. É também indispensável fazer mais e melhor para apoiar as famílias mais jovens e fomentar a natalidade.

O evangelho lembra-nos que «àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus». Esta é, de facto, a mais profunda e radical das transformações: sermos, também nós, elevados à dignidade de filhos com o Filho. Nunca o ser humano poderia almejar tão nobre condição nem atribuir a si tal poder, mas com o nascimento de Jesus essa possibilidade tornou-se real.

Neste dia, inspirados no exemplo de Jesus e, como Ele, dóceis à vontade do Pai, sintamos a alegria de ser filhos e a responsabilidade dessa nova identidade. Ser e viver como filho de Deus significa, em primeiro lugar, partilhar da esperança do Pai. Deus depositava grande esperança em seu Filho como continua a confiar em nós. Não defraudemos essa esperança mas repletos da luz natalícia sejamos capazes de a levar a tantos que já desistiram da vida ou nada mais esperam de si ou dos outros.

Ser filho como o Filho nascido em Belém significa ainda cultivar um coração fraterno, capaz de acolher qualquer ser humano como seu irmão. Que o Natal, vivido num contexto de grandes divisões e fraturas, ajude a converter todos corações a uma autêntica fraternidade. Ser filho como o Filho de Maria significa ainda promover a paz. Neste tempo que deveria ser de paz, rezemos especialmente por todas as crianças e famílias, na Ucrânia e em tantas partes do mundo, a quem a paz foi negada.

A bela história do Natal, iniciada com o nascimento de Jesus em Belém, pode continuar agora na vida de cada um de nós, quando formos capazes de viver autenticamente como filhos de Deus. Jesus nasceu, cresceu e dedicou a sua vida cumprir a sua missão salvífica. Ousemos, também nós, renascidos com Cristo, caminhar com Ele, crescer na fé e no compromisso de cumprir a sua palavra e fazer crescer o seu Reino.

Um Santo Natal para todos.

Vila Real, 25 de dezembro de 2022

+António Augusto de Oliveira Azevedo
Bispo de Vila Real