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Homilia – Festa das Vindimas (Peso da Régua)

DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM

A celebração da eucaristia em plena época das vindimas tem um significado especial: ela exprime a nossa gratidão a Deus pelos frutos da videira, a grande riqueza desta região, e pelo trabalho de tantos homens e mulheres que com grande esforço e com muito amor cuidam das vinhas.

No evangelho deste domingo Jesus apresenta-nos uma parábola centrada precisamente no trabalho na vinha. Toda a ação é desencadeada pela atitude daquele proprietário que incansavelmente procura trabalhadores para a sua vinha. Ela indicia a preocupação, o cuidado, até a paixão que ele nutre pela sua vinha. Na Bíblia, em vários momentos, a vinha é apresentada como símbolo do povo que Deus colocou na história como sinal e instrumento do seu desígnio de salvação. Deus é o senhor apaixonado pela sua vinha, que tudo faz para que esteja bem cuidada e espera que na altura própria dê bons frutos. Da mesma forma sofre quando é maltratada ou devastada e lamenta quando a produção não satisfaz.

Meditar nestas palavras aqui, em pleno coração da região do Douro, rodeados de vinhas e no meio do  bulício próprio da época das vindimas, é um convite a um olhar contemplativo e  a um exercício de memória. Olhemos para esta paisagem ímpar do Douro que conjuga num harmonioso equilíbrio a beleza natural e a intervenção humana. Ela demonstra que a evolução técnica não é incompatível com o respeito pela natureza. Por outro lado, contemplar estas vinhas desperta a nossa memória para o valor das nossas raízes. Reconhecemos o trabalho de gerações que plantaram as vinhas, cuidaram delas, tiveram sempre paixão por estes projetos e por isso nunca desistiram, mesmo em tempos de crise.

A nós, cristãos, a atitude do senhor da vinha inspira-nos a alegria e a paixão por sermos povo de Deus, uma maior consciência da nossa responsabilidade de darmos melhores frutos. Sem esquecer a responsabilidade pela casa comum em que todos vivemos, o planeta, tantas vezes ameaçado nos seus equilíbrios por intervenção excessiva e desordenada do homem. É urgente o compromisso por mudar de estilos de vida e cuidar do planeta de forma séria.

Na parábola evangélica, a preocupação do proprietário com a sua vinha é confirmada pelas suas saídas a contratar trabalhadores, porque a dimensão enorme da tarefa assim o requeria.

Estes dias de vindimas no Douro e noutros lugares, mobilizando tantas pessoas, são dias de trabalho duro, numa atmosfera de agitação e de convívio. Precisamente o trabalho e as suas condições é algo que importa refletir e que aliás esta pandemia nos tem obrigado a repensar. Na crise atual ou na  sociedade tecnológica do futuro não se pode prescindir do trabalho humano. É necessário partir do princípio da defesa da dignidade da pessoa que trabalha e do reconhecimento da importância social de algumas atividades. Nestas circunstâncias destaco duas essenciais: aquelas que envolvem o cuidar de pessoas, dos doentes, dos idosos e aquelas que estão ligadas à agricultura, fundamentais para a produção de bens essenciais e para o desenvolvimento do mundo rural e do interior.

Mas o evangelho  aponta para um outro tipo de trabalho, aquele que diz respeito ao compromisso com a comunidade cristã e o serviço à sociedade. De facto, o Senhor conta com a participação ativa de cada cristão na vida da Igreja. A multiplicidade de tarefas que envolvem a missão da Igreja (desde a formação ao cuidado pelos idosos, os doentes e os pobres) requer o envolvimento de muitas pessoas. Na Igreja como na sociedade não se pode ficar ocioso, de braços cruzados ou pedir responsabilidades apenas para os outros. Poderá ser mais cómodo e tentador ficar a murmurar nas praças ou limitar-se ao comentário fácil nas redes sociais.

Na própria sociedade, nas várias áreas, na política, cultura ou desporto, no voluntariado, na diversidade de associações e coletividades é necessária uma participação mais ativa de cada um. Se queremos renovar as comunidades e tornar a sociedade mais viva e dinâmica é indispensável a participação de cada um; todos são úteis e necessários. De outra forma corremos o risco de ter comunidades mais passivas e uma sociedade mais fraturada e desigual, mais facilmente dominada por interesses pouco claros ou poderes pouco escrutinados.

A parábola do evangelho culmina destacando o facto de que aquele proprietário não falhou no cumprimento das suas obrigações: dar a cada um o que estava acordado. De modo surpreendente ele até vai mais longe e é generoso para com alguns. Desta forma Jesus desvenda-nos uma vez mais um Deus que, além de justo, é bom, generoso e misericordioso.

Num tempo de forte cariz tecnocrático tendemos a reduzir tudo a números e a dinheiro. A visão cristã desafia-nos a ir mais além e a perceber que a relação com Deus (e também com os outros) não se reduz a uma contabilidade. Com Deus nunca ficamos a perder porque as graças e os dons que nos concebe superam sempre o que imaginamos e merecemos. É que os caminhos de Deus são sempre os do amor e da gratuidade, superando alguns dos nossos caminhos, limitados pela inveja e pelo ciúme.

No seu coração há lugar para cada um e para todos, a começar pelos últimos. Estes que a sociedade esquece ou descarta, os mais pobres, os que não contam, não têm voz ou poder, todos estes têm prioridade no coração de Deus. Eles serão os primeiros enquanto muitos dos que a todo o custo querem ser primeiros, tantas vezes sem olhar a meios, perceberão, porventura tardiamente, que afinal serão últimos.

Demos graças a Deus, Pai generoso e bom, pelos dons da criação, pelas uvas e por tantos frutos da terra. Com este fruto da videira e do trabalho do homem celebremos a vida, a salvação, a alegria e a fraternidade. Peçamos que o Senhor nos ensine os seus caminhos para sabermos cuidar melhor uns dos outros e da terra e sermos trabalhadores disponíveis para a sua vinha.

Peso da Régua, 20 de setembro de 2020

+António Augusto de Oliveira Azevedo