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Homilia – Encerramento do Ano Jubilar

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO

        Nesta celebração encerramos o Ano Jubilar que assinalou o centenário da criação da nossa diocese de Vila Real. Foi um ano cheio de bençãos que permitiu o aprofundar da consciência do significado de pertencer a uma diocese. Um tempo que nos deu a oportunidade de manifestarmos a nossa gratidão a Deus pelos dons que concedeu a esta porção do seu povo durante o caminho de um século. Foi tempo de benção porque tivemos possibilidade de peregrinar até esta Igreja Catedral, de evocarmos as figuras de bispos e presbíteros que marcaram a vida da diocese, dos movimentos laicais e outras realidades pastorais que enriqueceram este longo e belo caminho. Foi tempo de celebração, de encontro e de festa, que não deixou de nos lembrar também erros, carências e pecados que fizeram parte deste trajecto e de que nos penitenciamos. No fim, podemos dizer: «Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos céus nos abençoou com toda a espécie de bençãos». Este ano foi uma benção; estes cem anos foram uma grande benção.

        Encerramos este ano especial na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, padroeira da diocese. Além do agradecimento filial a Maria pela sua intercessão materna em favor desta Igreja e de todos os seus membros, somos convidados a encontrar no seu exemplo a inspiração para o novo tempo que se abre diante de nós. Hoje é dia de olhar o futuro, de sonhar e perspetivar o que está por vir. Não se trata de um exercício de adivinhação ou da pretensão de pensar que se conhece antecipadamente, se domina ou determina o que está diante de nós. Como cristãos encaramos sempre o futuro na lógica do advento e na perspetiva da esperança, isto é, como Maria, de coração aberto e disponível  para acolher a novidade que Deus quer realizar na nossa vida e na história.

        No evangelho escutamos a anunciação do Anjo Gabriel àquela jovem de Nazaré. Tratou-se de um verdadeiro anúncio, embora pessoal, em que Deus manda dizer que iria enviar o seu Filho e dar início ao cumprimento das suas promessas. É o despontar de um tempo novo, o concretizar de expectativas de gerações. Um rebento novo iria brotar da velha e gasta raiz de Jessé.

        A concluir este Ano Jubilar convido a diocese, em primeiro lugar, a olhar o futuro com esperança. Estou certo que esta vinha centenária que cresceu com raízes fortes e profundas, poderá produzir mais e melhores frutos, um vinho ainda mais abundante e delicioso. Este é o desafio que nos deve unir e assim evitar que possamos cair na armadilha do pessimismo, na atitude cómoda mas estéril da nostalgia ou no paradoxo do cepticismo. Apesar de alguns sinais preocupantes a atitude do crente é sempre de esperança porque não estamos dominados pela idolatria do presente ou do sujeito mas vemos sempre mais além e mais alto. A diocese entra num novo século de vida com renovada esperança de que a bela história de salvação que começou a ganhar forma e corpo na anunciação continuará a acontecer no hoje e amanhã da nossa vida pessoal e coletiva.

        Este olhar crente deve predispor-nos, como Maria, para acolher Aquele que verdadeiramente importa: Jesus Cristo. Este é o segredo que ela nos ensina: saber acolher a Jesus para depois o dar ao mundo. Da mesma forma, na nossa vida eclesial é decisivo o reconhecimento desta centralidade de  Cristo. É necessário superar autorreferencialidades pessoais e institucionais. Cristo está no centro da vida do crente e da Igreja e isso precisa de ser mais claro e evidente, mais visto, sentido e ouvido. Neste processo de renovação é indispensável a docilidade à ação do Espírito Santo. Como em  Maria, o Espírito, é a força capaz de nos iluminar e de abrir caminhos que estamos longe de imaginar.

        Neste dia, além de olhar o futuro com esperança e acolher a vida nova que Cristo nos traz, somos ainda desafiados a renovar o nosso Sim. Como Maria, a nossa resposta afirmativa a Deus, dada em momentos sagrados, além de livre e corajosa, deve envolver toda a nossa vida. Não se pode ser cristão a meias, não se é padre apenas em alguns momentos ou lugares, não se é leigo só em certos dias ou circunstâncias. O nosso Sim dado a Deus envolve a totalidade da nossa vida, supõe um colocar-se constantemente nas suas mãos, sem condições ou receios. O futuro que se abre diante de nós, em termos pessoais e comunitários, estará sempre condicionado pela fidelidade, alegria e compromisso com que todos os dias renovamos o nosso Sim. O Sim a Deus, a Jesus Cristo e à sua Igreja.

        No relato evangélico, Maria, surpreendida e entusiasmada com a proposta divina, não deixa de colocar uma questão muito realista: «Como será isto se não conheço homem?». De facto os planos de Deus sempre têm em conta a realidade concreta da pessoa e da história. Nesse sentido, perpetivar o futuro com um renovado compromisso obriga-nos a enfrentar com verdade e realismo o contexto em que nos situamos. A esse propósito, confirmam-se os sinais de que a nossa região continua num preocupante processo de envelhecimento e desertificação. É urgente encarar esta situação para encontrar soluções no sentido de a atenuar e inverter. Por outro lado acentuam-se os temores de um agravamento próximo da crise económica com consequências sociais. Sem esquecer os sinais de profunda mudança cultural, bem evidentes no uso de novas tecnologias e linguagens, na adoção de novos ritmos e hábitos de vida.

        Para a Igreja e para esta diocese em concreto, este quadro constitui um enorme desafio. Diante de nós está um mundo bem diverso do que existia há cem anos. Hoje exige-se de todos nós, clero e leigos, uma atitude mais ousada e criativa, que não se limite a uma lógica de manutenção ou a repetir o que sempre se fez. Como nos diz o Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: «Não quero uma Igreja preocupada como ser o centro e que acaba presa no emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem e força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem  uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido de vida».(EG,49) A nossa missão é fazer chegar a todos o anúncio mais belo, decisivo e atraente, aquele que Maria recebeu na Anunciação e que começou  a ressoar no Natal: Deus enviou-nos o seu Filho como nosso Salvador!

        O contexto atual pede-nos uma purificação do olhar e uma mudança de atitude no sentido de um renovado entusiasmo no anúncio do Evangelho e de compromisso com a missão da Igreja. Os meios humanos não abundam e as condições materiais são limitadas mas move-nos a convicção de que, quando fazemos tudo o que nós é possível, Deus fará o impossível. Impõe-se que façamos o que está nas nossas mãos e nesse sentido é necessária a reorganização das estruturas pastorais e a revisão das prioridades e recursos em todos os âmbitos da vida diocesana. Acima de tudo tenhamos o discernimento de saber escolher bem: em vez da inércia ou fechamento, abramos o coração para que nele cresça um espírito mais fraterno e uma atitude mais sinodal. Caminhemos todos juntos, como Povo de Deus, criando as condições para frutificar com alegria.

        Enaltecendo hoje, com toda a Igreja os méritos de Maria, Nossa Senhora da Conceição, invoquemos a sua proteção maternal para que esta Igreja diocesana que celebra o seu centenário, tenha um rosto mais belo e jovem, acolhedor e fraterno, um rosto mais evangélico.

Vila Real, 8 de dezembro de 2022

+António Augusto de Oliveira Azevedo