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Solenidade de Todos os Santos

Esta solenidade de Todos os Santos é um dos grandes momentos de celebração da nossa esperança cristã. Esta encontra-se bem retratada no quadro apresentado na profecia do livro do Apocalipse: uma multidão incontável de todas as nações, tribos, línguas e povos, de pé na presença do Cordeiro, a aclamá-lo pela salvação que Ele operou. Esta multidão testemunha que a nossa história tem em Deus o seu princípio e fim e confirma que é atravessada por um rio de santidade.

Nas várias épocas e circunstâncias históricas foram muitos os crentes que, assumindo a sua condição de batizados, imprimiram uma marca de bondade e de santidade. Em geral só destacamos os grandes feitos com impacto político, social, económico ou cultural, mas decisiva foi a marca impressa pelos santos que deixaram um rasto de bondade, de amor e de esperança. Também hoje, a par das notícias quotidianas, algumas das quais nos envergonham ou inquietam, importa destacar e valorizar as acções de tantas vidas que pela sua santidade tornam a existência mais bela, a história mais humana e nos fazem ter razões para acreditar que Deus não nos esqueceu.

Neste dia damos graças por essas vidas santas que nos alegram e enchem de esperança. Uma esperança que, como lembrava S. João na sua epístola, nos purifica e estimula a crescer, porque precisamente sabemos o que somos mas «ainda não se manifestou o que havemos de ser; sabemos que na altura em que se manifestar seremos semelhantes a Deus». A esperança de chegarmos a esse encontro final e feliz com Deus imprime uma dinâmica de crescimento na vida do crente, a de evoluir como Filho de Deus até ser santo como Ele é Santo. É um grande ideal, a mais importante das metas que não nos deixa desanimar perante as dificuldades, resignar à mediocridade ou transigir face à superficialidade e futilidade que nos rodeiam.

A forte mensagem de esperança que esta solenidade proclama encontra eco na recente exortação do Papa Francisco, intitulada Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e exultai) sobre a santidade no mundo tual. O Papa escreve: «Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia onde cada um se encontra». E concretiza: «Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa como Cristo fez com a Igreja. És trabalhador? Sê santo cumprindo com honestidade o competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avô ou avó? Sê santo ensinado com paciência os mais novos a seguirem Jesus. Estás revestido de autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando a interesses pessoais» (GE, 14).

Deus chama cada um dos seus filhos a percorrer este caminho de santidade, crescendo todos os dias com pequenos gestos. Neste caminho contamos com a ajuda do Espírito Santo e santificador e com os Santos que nos encorajam e acompanham com a sua intercessão. Não há que ter medo porque a santidade não tira forças nem alegria, bem pelo contrário, é caminho para cada um encontrar a felicidade mais plena e experimentar a alegria mais autêntica.

A liturgia desta solenidade, para além de ser proclamação da esperança e apelo à santidade, apresenta-nos ainda o caminho que Jesus propõe para que ela se concretize. De facto, as Bem-aventuranças constituem a referência insuperável, o modelo sempre válido para todos os que desejam alcançar a plena e eterna felicidade. Este trecho decisivo do evangelho precisa de ser continuamente meditado para que cada uma das suas frases inspire e oriente a nossa conversão, tendo presente, como lembra o Papa Francisco, que «as Bem-aventuranças não são mera poesia mas estão em contracorrente com o habitual, com o que o mundo faz» (GE, 65).

Deixemos pois que cada uma das frases de Jesus ecoe no nosso coração e fique guardada no íntimo da consciência:

Felizes os pobres em espírito porque deles é o Reino dos Céus. Só um coração pobre é um coração livre, onde há lugar para o outro e para Deus. Desta forma poderá dispor a pessoa para um estilo de vida mais sóbrio, austero, voltado para o essencial e abri-la ao valor da partilha.

Felizes são os mansos, mesmo quando a arrogância e a ambição desmedida parecem dominar, gerando discórdia e violência. Só a humildade e a mansidão podem pacificar os corações e curar feridas nas relações humanas.

Felizes os que choram, por causas das suas próprias dores ou pelos sofrimentos de outros, porque chorar é humano e encontrarão consolação em Deus. Eles sabem que a vida não se reduz ao espetáculo ou entretenimento e pode tornar-se desumano quando se fecha no egoísmo e na indiferença.

Felizes os misericordiosos, aqueles que acreditam que o perdão, o acolhimento e a ternura são mais dignos do homem do que o ódio ou a vingança.

Felizes os puros de coração porque verão a Deus. Nestes corações simples só há lugar para a sinceridade, a retidão de intenções, o amor autêntico e por isso não se deixam seduzir nem aprisionar pelo mal, a corrupção ou o pecado.

Felizes os pacificadores, aqueles que sendo pacíficos são fonte de paz à sua volta, empenhando-se em construir pontes de diálogo e em superar divisões.

Felizes os perseguidos por causa da justiça. De facto, tal como Jesus, tantos justos, homens e mulheres de fé, foram perseguidos, maltratados e mortos. Foi assim no passado e ainda é assim hoje em tantas partes do mundo, seja de forma direta e violenta, ou usando outras modalidades como a mentira, a calúnia ou a zombaria. A fidelidade no seguimento de Jesus exige muitas vezes uma grande coragem e um dom total de si até ao martírio como vemos na vida de tantos santos.

Todos os Santos e cada um deles soube viver e incarnar o espírito das Bem-aventuranças. Por isso as suas vidas enchem de luz a história, iluminam as nossas vidas e enriquecem a vida da Igreja. Dentro de poucos dias teremos a graça de celebrar a canonização de mais um santo português – Frei Bartolomeu dos Mártires. Em pleno séc. XVI este dominicano, eleito Arcebispo de Braga distinguiu-se como um grande pastor. Depois da participação no Concílio de Trento, empenhou-se na revitalização pastoral das comunidades cristãs e na formação do clero. Convido a todos a que preparemos e vivamos esta canonização como um momento de graça e de festa, acolhendo o estímulo que representa para a renovação da Igreja na santidade.

Com a intercessão de Frei Bartolomeu dos Mártires e de Todos os Santos, peçamos a Deus que cada um dos seus filhos caminhe na santidade, com a ajuda do Espírito Santo e da Santíssima Virgem Maria, nossa mãe. AMEN

Vila Real, 1 de Novembro de 2019

+António Augusto de Oliveira Azevedo