Homilia – Ordenações 2021

HOMILIA DA CELEBRAÇÃO DE ORDENAÇÕES

        O dia das ordenações é um dia de grande significado na vida da nossa diocese de Vila Real. É dia de ação de graças pelo dom que recebemos de Deus de dois padres e três diáconos para o serviço da Igreja; é dia para enaltecer o trabalho formativo desenvolvido no seminário; é dia de reconhecimento pelo papel das comunidades paroquiais de naturalidade e de estágio dos ordinandos, sem esquecer a missão determinante das respetivas famílias, enquanto berços da vida e escolas da fé. Acima de tudo é dia de alegria pela disponibilidade destes jovens (o Luís, o Marcelo, o Daniel, o João Paulo e o Miguel) em servirem esta igreja e também um grande momento de esperança porque confiamos no contributo importante que todos e cada um poderão dar à vida da diocese.

        As expectativas dos próprios e de todos nós, precisam de ser aferidas pela palavra de Deus. Mais do que desejos pessoais ou projetos coletivos, importa discernir o que essa palavra divina nos inspira acerca da missão dos novos ministros e de cada um de nós no mundo de hoje.

        Do evangelho proclamado ressalta a atitude de Jesus que está no meio do seu povo, na sua própria terra, reunido na sinagoga e depois continuando a percorrer as outras aldeias. A proximidade de Jesus ao seu povo manifesta-se no estar no meio dele e concretiza-se no escutar e falar, no acolher e curar e até no intuir o que vai no mais íntimo dos corações. Este estilo de Jesus, recorrente no evangelho, é um traço definidor do estilo de ser ministro da Igreja nos tempos de hoje. De quem é ordenado para o serviço do povo de Deus espera-se precisamente que realize essa missão de forma próxima de todos e não fechado num gabinete ou sacristia, ou à distância real ou virtual. O Padre, enquanto ministro de Jesus Cristo é sempre o irmão, o amigo, aquele que está próximo, sobretudo dos mais pobres, dos doentes e dos fragilizados. A paixão de ser povo, de estar com o povo e cuidar dele, é imprescindível a um estilo pastoral verdadeiramente evangélico. Para isso é necessário ultrapassar lógicas de egoísmo, fechamento, prepotência ou autossuficiência. Imitando a Cristo que veio para servir e dar a vida, o padre é chamado a sair de si e ir ao encontro do povo a quem é enviado. Só assim poderá experimentar as alegrias e grandezas do ministério. Ao contrário, atitudes de autocentramento e autorreferencialidade acabam por potenciar cansaços e desilusões. Um estilo sacerdotal mais evangélico, fraterno e sinodal é antídoto à tentação de um clericalismo revivalista e anacrónico. 

        A presença e ação de Jesus no meio do seu povo não foi sempre fácil, nem sempre foi sinónimo de sucesso. Foi o caso de Nazaré, onde não aconteceram milagres por causa da falta de fé daquela gente. A incredulidade dos nazarenos radicou na incapacidade de se abrir ao mistério da pessoa de Jesus, de reconhecer que, apesar de ter ali crescido, a sua sabedoria, os seus gestos apontavam para algo mais. Ficando apenas nas considerações superficiais, em questões externas não foram capazes de procurar respostas mais profundas.

        A vida dos padres e diáconos precisa de estar preparada, tal como Jesus, não só para viver momentos de entusiasmo e aceitação, como também para os de dificuldade e indiferença. O contexto que hoje vivemos é de crescente indiferença à fé e incredulidade. Ele é favorecido por uma cultura que privilegia a aparência, a superficialidade, a emoção fácil e promove o consumismo passivo, a adesão acrítica, substituindo a reflexão pessoal pelo catálogo do prêt-à-penser.

        Ser padre em contexto de crescente incredulidade é um ato de fé e coragem, próprio de quem se sente desafiado a um estado de permanente missão. É um passo ousado que conta cada vez menos com as redes de segurança do prestígio social ou bem-estar material, mas confia sobretudo na força do Espírito, na comunhão do presbitério e no acolhimento e colaboração de tantos leigos cuja fé brilha como lâmpadas acesas no meio da noite. Ser padre neste contexto é um sinal de liberdade evangélica, próprio de crentes e jovens que, como o profeta Ezequiel, não desistem de anunciara palavra de Deus. Essa fidelidade no anúncio da palavra, acompanhada do testemunho de uma vida inspirada em Jesus é necessária mais do que nunca, para abrir as mentes e tocar os corações dos homens e mulheres de hoje. A vida do sacerdote constitui-se assim como verdadeiro anúncio e profecia.

        O mistério da vida sacerdotal só se entende à luz da graça divina. “Basta-te a minha graça!” – é este o segredo interior que animava a vida e o ministério de São Paulo. De facto, a vocação sacerdotal é graça, é dom de Deus, concedido a alguém para ser colocado ao serviço da Igreja. Não é um prémio ou distinção, não corresponde a um mérito ou direito, mas é puro dom da liberdade divina que chama aqueles que entende. Cada um de vós, hoje ordenado presbítero e diácono, soube escutar, acolher e discernir esse chamamento e responder com fé, com a totalidade do seu ser e da sua história. Neste momento solene ides receber a unção do Espírito em ordem à missão. Para a cumprir fielmente importa ter sempre presente que é Deus quem age através de vós, sois mediadores (não donos!) da sua graça que por vós tocará a vida de muitos.

        Para o Apóstolo, a consciência do poder da graça divina não iludia a noção das suas próprias fraquezas. Apesar das contrariedades que viveu e das fragilidades que experimentou, continuava certo de que a graça de Deus era superior a tudo e o tornava mais forte. A resolução deste paradoxo “quando sou fraco, então é que sou forte” só é possível a quem, pela fé, se entrega a Cristo. Os cristãos e os ministros em particular precisam de ter consciência e assumir as suas fraquezas, de contar com as ajudas necessárias e convenientes e sobretudo de deixar que interiormente a graça vá transformando a natureza. É difícil ser um padre perfeito, mas é possível e desejável caminhar numa configuração cada vez maior com Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, Único e Bom Pastor.

        Caros ordinandos, mais do que protagonismos fáceis ou busca de compensações mundanas, empenhai-vos em ser fiéis Àquele que vos chamou e vos envia; esforçai-vos por crescer espiritualmente, em reforçar o espírito de comunhão com todo o presbitério, em colocar a vossa vida, tempo, qualidades e energias em servir dignamente o povo a vós confiado. Este será o caminho para um ministério feliz e fecundo, o sinal de que a graça de Deus em vós não foi em vão.

VILA REAL, 4 DE JULHO DE 2021

+António Augusto de Oliveira Azevedo