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Homilia – Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

Jesus Ressuscitou, Ele está vivo! Depois de morrer na cruz e ser sepultado, ao terceiro dia Deus ressuscitou-o dos mortos. Na manhã de Páscoa esta é novidade que alegra os nossos corações, a boa nova celebrada e cantada em todas as comunidades cristãs, a grande notícia para o mundo. Em cada Páscoa somos convidados a vibrar com este acontecimento central e decisivo da nossa fé. Especialmente nesta época em que abundam notícias pouco animadoras, o anúncio pascal precisa de ressoar ainda com mais força.

A proclamação da ressurreição de Jesus Cristo é de facto, o anúncio «mais belo, mais importante, mais atraente e mais necessário» (EG,35). É a notícia mais bela porque a ressurreição de Jesus projeta uma nova luz sobre a nossa vida, enche-a de cor e alegria e remove várias sombras. É a notícia mais importante porque nos fala do que é mais decisivo para o ser humano, a sua salvação, a vitória sobre o mal e a morte. É o anúncio mais necessário porque corresponde ao anseio mais profundo do homem, o da esperança numa felicidade eterna. É ainda a notícia mais atraente que tem suscitado o interesse e a curiosidade de tantos desde a manhã de páscoa, porque fala de algo nunca visto, nunca vivido.

O evangelho refere que a primeira a chegar junto do sepulcro foi Maria Madalena, surpreendida por ver a pedra removida. Esta constatação gerou no seu coração sentimentos de espanto e de medo, suscitando na sua mente uma série de especulações. Mas o facto do sepulcro estar vazio era o primeiro indício de que algo acontecera, o primeiro capítulo de uma história nova, continuada na visita dos discípulos e posteriormente esclarecida com as aparições do Ressuscitado. A pedra removida é símbolo de que para Deus a história não se fecha, pelo contrário está sempre aberta à novidade. Por mais pesadas e inamovíveis que pareçam alguns obstáculos na vida das pessoas e das sociedades a mudança é possível. Para quem acredita, com Deus é possível sair de alguns túmulos de solidão, de sofrimento, miséria e desumanidade onde tanta gente parece encerrada.

A experiência de Maria Madalena, tal como a de todos os que naquela manhã foram sabendo da notícia da ressurreição, teve a marca da alegria. Uma alegria inicial ainda sobressaltada até àquela alegria que não se podia conter e precisava de ser partilhada. Assim, desde aquela manhã de Páscoa, a marca do cristianismo é a da alegria. Embora por vezes a Igreja tenha projetado um rosto triste e cinzento, o seu rosto autêntico é o pascal, é o rosto da alegria. Por isso, hoje a boa nova da ressurreição precisa de levada ao mundo através de vozes entusiasmadas, corações fervorosos, vidas que irradiam alegria.

Para os envolvidos nos acontecimentos daquela manhã, a ressurreição de Jesus constituiu sobretudo um desafio à sua fé. É o caso do discípulo que acompanhou Pedro na corrida ao sepulcro, que depois de contemplar aquele quadro, «viu e acreditou». A partir daquilo que viu o seu entendimento abriu-se para compreender o que as escrituras diziam sobre o Messias; o que constatou iluminou-o para uma nova interpretação das palavras e da vida de Jesus. Viu e acreditou naquele que dissera que o Filho do Homem depois de ser morto, havia de ressuscitar ao terceiro dia.

Para nós celebrar a Páscoa é acima de tudo momento solene para renovar e confirmar a nossa fé. Uma fé que se baseia no testemunho dos apóstolos, daqueles que, como dizia São Pedro, foram «as testemunhas de antemão designadas por Deus, nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos». Uma fé que não nos dispensa de buscar, de ir até junto da cruz ou correr ao sepulcro; uma fé que precisa de se iluminar na leitura da Sagrada Escritura. Mas uma fé que nunca deixará de ser um salto em frente, uma prova de confiança. Porque nós não fazemos parte daqueles que viram e acreditaram, mas pertencemos antes àqueles a quem Jesus se referiu quando disse: «Felizes os que acreditam sem terem visto».

Neste ano invulgar, o facto de celebrarmos a Páscoa com algumas limitações nas expressões festivas exteriores não pode diminuir a nossa alegria e o espírito de fé. A ressurreição do Senhor dá à vida uma nova música e uma nova luz. Essa música festiva do evangelho que irrompe na manhã de Páscoa não pode deixar de vibrar nas nossas entranhas, e, como lembra o Papa Francisco, «não pode cessar de se repercutir nas nossas casas, nas nossas praças, nos nosso postos de trabalho, na política e na economia» (FT,277). A luz que venceu as trevas do pecado e da morte não pode ser frouxa ou envergonhada, mas é um clarão forte, capaz de iluminar as mentes confusas, os corações obscurecidos e tantas zonas de sombra e de escuridão que existem no nosso mundo.

Por tudo isto, o domingo de Páscoa é um dia especial para quem é batizado. Tomámos consciência de que pelo banho batismal já mergulhamos na Páscoa de Cristo, já recebemos a unção espiritual. Acima de tudo renovamos hoje o nosso compromisso de sermos as testemunhas da ressurreição do Senhor. É necessário que esse testemunho seja mais efetivo no nosso tempo. Para isso importa que cada batizado sinta que ter fé não o diminui ou limita em nenhum aspeto, mas antes lhe abre horizontes mais amplos de vida e de esperança, os horizontes do alto, do céu. Ter fé alarga as perspetivas da vida, não as estreita. É indispensável que cada batizado valorize as suas raízes cristãs e o tesouro que a fé representa. Mas sobretudo é imperioso que cada um sinta que tantos à sua volta precisam que receber um pouco da luz, da esperança e da vida que o Ressuscitado nos legou.

O anúncio da Páscoa, o testemunho da fé, à imagem do ouvimos São Pedro fazer nos atos dos Apóstolos, precisa de ser desassombrado, corajoso e coerente. Acima de tudo um testemunho alicerçado na forte convicção de que Cristo Ressuscitou está connosco até ao fim dos tempos.

Santa Páscoa para todos.

Vila Real, 4 de abril de 2021

+António Augusto de Oliveira Azevedo