D. Manuel Vieira de Matos

D. Manuel Vieira de Matos – 160 anos do seu nascimento

D. Manuel Vieira de Matos e a criação da Diocese de Vila Real

Natural de Poiares, concelho do Peso da Régua, onde nasceu a 22 de Março de 1861, D. Manuel Vieira de Matos teve um papel decisivo e definitivo na fundação da Diocese de Vila Real, ao tempo em que era, ele próprio, arcebispo de Braga.

Após a sua transferência, como bispo, da Guarda para Braga, em Março de 1915, D. Manuel terá imediatamente empreendido diligências com vista à criação duma nova diocese em Portugal, no território do Distrito de Vila Real, tendo inclusivamente ido pessoalmente à Nunciatura Apostólica em Lisboa apresentar o assunto ao então encarregado de negócios da Santa Sé em Portugal, monsenhor Bento Aloisi Masella. Meses depois, dirigiu uma carta ao mesmo diplomata, expondo formalmente o requerimento a ser apresentado ao Papa Bento XV, para que se criasse uma diocese nos limites do já existente Distrito de Vila Real, para que as populações católicas desse território pudessem ser melhor servidas espiritualmente, o que não acontecia, dada a extensão territorial e a dimensão pastoral da Arquidiocese. Além disso, pesou na decisão do Arcebispo o facto do forte sentido religioso e espiritual e da forte prática cristã das populações do mesmo território e a vontade já manifesta de acolherem entre si um bispo próprio e exclusivo, como o próprio afirma nessa carta: “Ora, sendo em geral muito crentes os povos desta região, é fácil calcular o grande movimento religioso e eclesiástico a que o Prelado deve presidir e em que tem de tomar parte. E assim, entre outras obrigações, difícil se me torna o cumprimento do sagrado dever da visita pastoral.” E após: “Os habitantes de Vila Real reconhecem na criação do novo Bispado um bem imenso para o incremento da religião no distrito e um benefício económico para a própria vila. Naturalmente generosos, não deixarão de prestar ao Prelado valioso auxílio pecuniário.” Vê-se nestas palavras, com clareza, que o mesmo bispo terá tido o cuidado e a preocupação de, previamente, auscultar a opinião das gentes do território do distrito e da então vila de Vila Real.

Os territórios que viriam a compor a nova diocese, e que já constituíam distrito autónomo, eram, na realidade, partes de três dioceses: a de Braga, com a maior parte do território (167 paróquias dos concelhos de Boticas, Mondim de Basto, Montalegre, Vila Pouca de Aguiar, Ribeira de Pena, parte do de Chaves, parte do de Vila Real, parte do de Murça e parte do de Valpaços), a de Lamego com 71 paróquias (dos concelhos de Alijó, Mesão Frio, Peso da Régua, Sabrosa, Santa Marta de Penaguião, parte do de Murça e parte do de Vila Real) e a de Bragança com 19 paróquias (parte do concelho de Chaves e parte do de Valpaços).

Para tal, teria que se obter a concordância dos respectivos bispos, o que aconteceria com facilidade, tendo e conta, sobretudo, a extensão territorial de todas as dioceses implicadas, o que causava maior obstáculo à boa governação das mesmas. É evidente também, pela leitura do documento, que, ao fazer o requerimento à Nunciatura para a criação da nova diocese, em 3 de Janeiro de 1917, D. Manuel Vieira de Matos já havia realizado conversações com os bispos de Lamego e de Bragança, pois, pelo que o próprio afirma na referida carta, se entende que a concordância dos mesmos quanto ao assunto não seria difícil de obter.

Na mesma carta-requerimento, o Arcebispo dá indicações e informações acerca da então vila de Vila Real, que reconhece ter as condições indispensáveis para que passe a ser a sede do novo bispado, e sobre outros recursos necessários à instalação e funcionamento dos serviços diocesanos.

Termina afirmando:

“A criação da aludida diocese é urgentemente pedida pelo bem religioso nacional; pois se é um facto a afirmação de que a parte mais religiosa do País é constituída pelas províncias do norte, esta expressão terá maior verdade se a Arquidiocese de Braga for, pelo seu desmembramento, confiada ao zelo e cuidado de dois Prelados.”

E solicitando:

“Queira pois V. Exª dignar-se escutar a voz da consciência dum Bispo que só pretende colocar-se numa situação mais avantajada, para melhor cumprir os deveres e obrigações que sobre ele impendem.”

Estava semeada, com mais de cinco anos de antecedência, a futura Diocese de Vila Real.

Padre Jorge Fernandes