Páscoa, anúncio de vida em tempos de sofrimento

MENSAGEM DE PÁSCOA

Páscoa, anúncio de vida em tempos de sofrimento

A Páscoa deste ano será muito diferente daquilo a que estamos habituados. Dada a gravidade da epidemia que assola o país e o mundo, há medidas excecionais que obrigam à permanência em casa e à suspensão da atividade normal das comunidades cristãs. Neste contexto quero, antes de mais, manifestar a minha profunda proximidade de Pastor a todos os diocesanos, num abraço de comunhão a todas as famílias e comunidades, ao clero e aos leigos desta amada diocese. A minha preocupação maior, de que faço oração constante, centra-se nos doentes, nos idosos, nos profissionais de saúde e em todos os cuidadores nos hospitais, nas instituições ou em casa.

A nossa vivência quaresmal foi muito afetada por estas circunstâncias difíceis. Fomos forçados a jejuar de muitas coisas que prezamos, tais como da presença e do convívio de familiares e amigos, de projetos e ritmos de trabalho, do ar livre e de algumas formas de lazer. Além disso, sentimos, porventura pela primeira vez na vida, o significado da privação do acesso a esses tesouros que são os sacramentos da eucaristia e da reconciliação, bem como da participação na vida normal da comunidade cristã. Mas este tempo de deserto espiritual pode ter incentivado a oração pessoal e familiar, a leitura da Sagrada Escritura, e ajudado assim a reforçar a consciência da família como primeira comunidade cristã, verdadeira Igreja doméstica.

A celebração da Páscoa neste condicionalismo que ainda perdura inviabilizará a realização de algumas tradições próprias desta época. Será, por isso, uma festa com menos sinais exteriores e públicos, mas poderá (deverá) ser vivida com mais intensidade espiritual, em clima mais interior e familiar. Nesse sentido formulo o meu voto de que esta Páscoa seja verdadeira “passagem” para algo de novo que Deus nos quer dar, porventura para um tempo novo cujo contornos ainda não percebemos.

Para isso deixemo-nos inspirar pela experiência do povo de Israel que viveu a primeira Páscoa, reunido por famílias, pronto para atravessar o mar e chegar à terra da promessa, não sem antes ser testado na sua paciência, resistência e fé durante a travessia do deserto. Aprendamos também com a experiência dos discípulos de Jesus, para quem os primeiros dias daquela semana pascal foram de tragédia e desalento, face à paixão e morte de Jesus, mas culminaram naquele dia radioso em que foram sobressaltados pela notícia do sepulcro vazio e surpreendidos pela aparição do Ressuscitado.

Depois de uma quaresma atípica ousemos experimentar uma vivência pascal diferente e especial. Uma Páscoa que signifique uma verdadeira passagem para uma vida cristã mais pascal, para uma fé mais batismal, viva, forte, corajosa e livre. Uma festa que seja autêntica proclamação da vida que vence a morte, da vida que tem sentido quando é dada por amor até ao fim, como a de Jesus, porque só essa tem horizontes de esperança.

Para favorecer a vivência pascal em família, a diocese está a preparar e vai distribuir alguns materiais de apoio. Mas, desde já, quero convidar todas as famílias a colocarem velas acesas à janela das suas casas na noite pascal e as igrejas a tocarem os sinos ao meio-dia do domingo de Páscoa, como expressão da nossa alegria porque em Cristo a vida vence o sofrimento e a morte.

A Páscoa como celebração do acontecimento central da nossa história, prolonga-se e culmina no Pentecostes. Como nos recorda o Novo Testamento, foi esse o tempo da missão, o tempo de espalhar a “boa notícia” e gerar comunidades de crentes. Ainda condicionados pela pandemia, precisamos de viver o tempo pascal juntos, de continuar unidos e fortes, responsáveis uns pelos outros e conscientes de que podemos fazer um pouco mais. Precisamos de refazer as nossas vidas, repensando valores e prioridades, num processo iluminado pela fé. Precisamos de reforçar os laços que unem casais e famílias, para que redescubram que a fé e a oração podem ser pilares fundamentais no projeto de família. Vamos necessitar ainda de reativar a vida das nossas comunidades e de ser mais criativos, inventando novos modos de fazer pastoral. Tudo isto sem esquecer a primazia da caridade que não permite deixar para trás os doentes, os pobres, os mais frágeis ou sós, porque vão precisar de muito apoio.

Que Jesus Cristo, o Filho de Deus, morto e ressuscitado para nossa salvação, a todos cumule das suas graças e bênçãos. O Seu Espírito, Senhor que dá vida, nos ilumine com a sua sabedoria, fortaleza e paz. E Maria, Nossa Senhora da Conceição, nossa padroeira, nos proteja e guarde. Uma Santa Páscoa para todos.

1 de Abril de 2020

+António Augusto de Oliveira Azevedo

Bispo de Vila Real