Mensagem de D. António Augusto Azevedo para a Quaresma de 2026

 

Quaresma: caminho de conversão pessoal e comunitária

          Na quaresma deve ressoar no coração de todos o apelo de Jesus na Galileia, no começo da sua missão: «Convertei-vos porque está próximo o Reino de Deus» (Mt.4,17). Inspirada neste convite, a quaresma apresenta-se aos cristãos como um tempo de graça, ocasião de renovação da vida pessoal e comunitária. Para o mundo pode representar também uma oportunidade para perceber a necessidade da mudança. Há que reconhecer que muitos rumos têm conduzido à divisão e à violência, gerado mais sofrimento e desumanidade. Urge a conversão, a mudança de rumo.

Jesus convida a todos a um caminho novo que leva à Páscoa, à vida plena e à salvação. Uma atitude nova, de abertura ao seu Reino, um reino de paz, sustentado na justiça e iluminado pela verdade. Viver a quaresma com este horizonte desperta o desejo de uma verdadeira conversão. Uma conversão pessoal e comunitária que não se pode limitar a uma mera intenção, a algo vago ou teórico, mas carece de se manifestar em sinais concretos e reais.

Num ano em que a nossa diocese é convidada a percursos de implementação do espírito sinodal, importa sublinhar a prioridade e o sentido da conversão comunitária. Acolhendo as propostas do Documento Final do Sínodo, a conversão de que as nossas comunidades carecem é antes de mais, de relações. De facto na vida da Igreja permanecem ainda demasiados egoísmos e invejas, querelas estéreis e divisões sem sentido. São indispensáveis relações novas «com o Senhor, entre homens e mulheres, nas famílias, nas comunidades, entre todos os cristãos, entre grupos sociais, entre religiões, com a criação». Este desejo de relações mais autênticas corresponde a uma profunda consciência de fé: a qualidade evangélica das relações comunitárias é decisiva para o testemunho que o Povo de Deus é chamado a atuar na história» (DF, 50).

Outra dimensão da conversão proposta às comunidades cristãs é a conversão de processos. A comunidade dos discípulos de Cristo «não é um sujeito uniforme e amorfo, mas o seu Corpo com diversos membros, sujeito histórico comunitário no qual o Reino de Deus acontece como semente e princípio». (DF, 88) Sendo assim é fundamental promover a participação de todos na base de uma corresponsabilidade diferenciada. Todos os batizados são chamados a um compromisso mais efetivo na vida da Igreja, essencial para construirmos comunidades com um rosto novo, mais abertas a todos, mais acolhedoras, onde se experimente o calor de uma verdadeira família.

A conversão comunitária em espírito sinodal requer ainda uma conversão de vínculos. Os cristãos estão enraizados numa realidade familiar, eclesial e social, num meio profissional ou cultural, ao mesmo tempo que são peregrinos na história nos mais diversos lugares e contextos. A reforma da vida da Igreja implica o reforçar da consciência da nossa identidade e dos laços de pertença a comunidades e grupos concretos, sem deixar de alargar o coração a novos vínculos. Uma quaresma em sentido cristão desperta-nos para uma outra forma de ser Igreja, de nos ligarmos à comunidade, à família, aos amigos e ao mundo.

Esta conversão comunitária tem como condição uma autêntica conversão pessoal. Toda a reforma eclesial para ser efetiva e profunda supõe a renovação espiritual dos cristãos porque na base de toda a mudança de estruturas está sempre a mudança interior das pessoas. Nesse sentido a quaresma é também um tempo favorável para a renovação pessoal, com a ajuda da Igreja que, na sua sabedoria secular, nos propõe os meios mais adequados.

O primeiro desses meios é a liturgia da Igreja, sobretudo a eucaristia, que nos orienta numa verdadeira mudança de vida. Dia a dia, domingo a domingo, a escuta da Palavra de Deus forma a nossa consciência e ajuda a discernir os caminhos de Deus. Um lugar insubstituível ocupa também o sacramento da Reconciliação e Penitência em que fazemos a experiência única do perdão de Deus. A Igreja propõe ainda as práticas do jejum e da abstinência, da oração e da partilha, exercícios que, tendo a força da tradição continuam a ter plena atualidade e validade para favorecer uma autêntica conversão.

Na quaresma deste ano não podemos esquecer tantas pessoas, famílias e comunidades afetadas pelas tempestades das últimas semanas em vários pontos do país. A todas manifestamos a nossa solidariedade, prometemos as nossas orações e a nossa ajuda material. Nesse sentido a renúncia quaresmal dos cristãos de Vila Real reverterá para o apoio às vítimas desta calamidade.

Uma santa quaresma para todos.

 

Vila Real, 12 de fevereiro de 2026

+António Augusto de Oliveira Azevedo

Bispo de Vila Real

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