A primeira celebração do novo ano reveste-se sempre de um sentido muito especial. Vimos à casa de Deus, a esta Catedral, dar graças porque o Senhor nos concedeu o dom de viver mais um ano. O tempo que vamos vivendo não é uma mera sucessão de dias e anos, mas um sinal da bondade de Deus, uma expressão do seu amor que nos deu vida e nela nos tem conservado. Ele é o Senhor do tempo e da história e deseja que todos encontrem razões para viver com esperança.
Nesta manhã unimos as nossas preces às de todos os crentes para que Deus nos abençoe e proteja ao longo deste ano. Como verdadeiros filhos, voltamo-nos confiadamente para o Pai celeste pedindo-lhe que esteja sempre connosco e nos livre de todos os males. Que o seu rosto se volte para nós e nos seja favorável de modo a que realizemos os projetos que temos para o novo ano e que auxilie a humanidade a encontrar caminhos de justiça e vida mais feliz para todos, de modo especial para quantos estão em situação de maior dificuldade ou sofrimento.
Na oitava do Natal, a liturgia convida-nos a olhar novamente para o Menino do presépio que recebe o nome de Jesus. Contemplando a sua figura e louvando o seu nome, percebemos que esse nome corresponde a uma escolha divina para uma missão. A essa luz, tomamos consciência de que o nosso nome indicia também a nossa união a Cristo e o sentido de missão que tem a vida de cada um de nós. Como os pastores glorifiquemos a Deus e sejamos capazes de falar a todos com alegria sobre o que este menino representa para nós.
Neste dia voltamo-nos de modo especial para Maria, Santa Mãe de Deus. Esta é uma das invocações, um dos títulos mais antigos e mais belos dirigidos àquela que deu à luz o nosso Redentor. Começar o ano destacando a figura de Maria é expressão da nossa gratidão e amor à Mãe do Céu. De forma simples mas significativa, o evangelista refere que Maria «conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração».
Inspirados no exemplo daquela que, sendo Mãe de Deus também nos foi dada como nossa mãe, aprendemos que a atitude própria do crente estar na vida é guardar memória do que vai marcando os dias e de tudo viver a partir do coração. Se fizermos este exercício, nestes dias que estamos a viver não podemos deixar de ficar com o coração condoído diante do sofrimento causado por tantas guerras que destroem a vida dos povos, semeiam o sofrimento a tantas famílias e a morte a tantos inocentes.
Neste que é também o Dia Mundial da Paz, o Papa Leão convida-nos a rezar e a refletir sobre a paz. Na sua mensagem faz eco da saudação de início do seu pontificado, precisamente a saudação de Jesus Ressuscitado: «A paz esteja convosco». O cristão que recebeu o Espírito de Cristo, acolhe-o no seu coração e com Ele experimenta a fonte da verdadeira paz. De facto aquele que nasceu em Belém, em nome de quem foi proclamada a paz na terra, depois de sofrer a violência e a morte, ressuscitou como Senhor da vida, transmitindo aos seus discípulos a paz. Passados dois mil anos, ser cristão implica acolher a paz no coração, acreditar na paz e estar sempre comprometido com a paz. Uma paz desarmada e desarmante, acrescenta, mais uma vez, o Papa Leão.
A saudação do Ressuscitado: «a paz esteja convosco» continua a ser marcante no cristianismo a ponto de ser atualizada em cada celebração. A paz que Jesus nos deixou não é uma paz como o mundo a dá. É uma paz desarmada que confia no perdão, que aposta no diálogo e respeito pelo outro. Porém a paz que o mundo propõe é uma paz que tantas vezes significa a imposição da lei do mais forte, a imposição do medo e do terror pela força das armas.
Num momento em que se assiste a uma forte corrida aos armamentos, sem deixar de reconhecer o direito dos países à sua proteção e legítima defesa, é necessário não omitir que aumentam os riscos de confrontos. Esses riscos, aliás, são exponenciados pela sofisticação das armas que recorrem cada vez mais a inteligência artificial, o que vem reforçar o poder destrutivo e multiplicar o rasto de morte e desumanidade que a guerra sempre semeia.
Precisamos de uma paz desarmada e de uma paz desarmante. Um Deus feito criança é desarmante; um Deus que se entrega na cruz por amor é desarmante; o rosto de uma criança num cenário de guerra é desarmante (e chacante); pensar no futuro dos jovens que perdem as suas vidas é desarmante. É necessário desarmar os corações de tanto ódio, denunciar as palavras enganosas de tantos que são movidos apenas pela sua ganância, dominados por interesses ou pela ambição desmedida de poder e domínio.
O Papa Leão sublinha o papel da religião na pedagogia da paz. Lembra que «não se pode arrastar as palavras da fé para o embate político e justificar religiosamente a violência e luta armada» e ainda que «os fiéis devem refutar ativamente , antes de mais com as suas vidas, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus». A religião deve ser escola de paz, cultivando a oração e uma espiritualidade promotoras de paz, incentivando o diálogo ecuménico e inter religioso como caminhos para a paz.
Como os pastores saíram do presépio cheios de alegria, também nós iniciemos este ano com um coração cheio de alegria, confiança e paz. Apesar de difícil, a paz é possível e necessária, não só na Ucrânia, na Terra Santa e em tantos lugares do mundo. Rezemos hoje e sempre pela paz, mas sobretudo sejamos verdadeiros construtores de paz. Façamos das nossas casas e comunidades lugares de paz. Façamos do nosso coração um refúgio de paz. Não sejamos semeadores de mentiras e intrigas nem nos deixemos manipular por mensagens de ódio ou violência. «Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt.5,9).
Com a intercessão de Maria, Mãe de Deus, o Senhor nos abençoe a proteja ao longo do novo ano, nos conceda a paz e muitos dias felizes para todos.
Vila Real, 1 de janeiro de 2026
+António Augusto de Oliveira Azevedo
Diocese de Vila Real Diocese de Vila Real