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Mensagem à Diocese de Vila Real no início do Ano Pastoral

            No início do ano pastoral quero renovar o meu profundo agradecimento a toda a diocese pelo acolhimento caloroso que tem prestado desde o dia da minha tomada de posse, a 30 de Junho. Sinto muita alegria na nova missão de pastor desta diocese de Vila Real e um grande desejo de caminhar convosco para sermos cada vez mais uma Igreja deste tempo, empenhada em viver e testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo nestas belas terras transmontanas e durienses. Para isso ser possível é necessário estarmos atentos e dóceis àquilo que o Espírito Santo nos inspira e fortalecermos a unidade e a comunhão entre todos.

            Nestes três meses tive oportunidade de conhecer muitos aspetos da vida da diocese. Além de experimentar a sua vastidão geográfica, pude contactar de perto com o clero e leigos, com vários grupos, comunidades e instituições, o que me tem permitido avaliar melhor todas as potencialidades da diocese, a começar pela sua riqueza humana, e também algumas dificuldades e limitações. Forte impressão me tem causado a fé profunda do povo simples, o empenho e proximidade do clero e a situação de despovoamento de algumas zonas.

            Nesta fase de conhecimento da realidade e de ativação das várias estruturas de corresponsabilidade não seria aconselhável que apresentasse já à diocese um plano pastoral, como era boa prática dos meus predecessores, mas apenas alguns pontos de orientação para o ano pastoral.

            1º O ano pastoral começa com a celebração do Mês Missionário Extraordinário, coincidindo em Portugal com o encerramento do Ano Missionário. Na carta em que proclamou esta iniciativa, o Papa Franciscoescrevia: «Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento não nos serve uma “simples administração”. Constituamo-nos em “estado permanente de missão” em todas as regiões da terra».

            Concluído o Ano Missionário e celebrado este Mês Extraordinário, importa que esta marca missionária não se dilua ou apague, mas seja, pelo contrário, o eixo fundamental de toda a nossa vida e ação pastoral. Desta forma estaremos a corresponder ao apelo programático feito pelo Papa na Exortação A alegria do Evangelho: «Cada Igreja particular, porção da Igreja Católica sob a guia do seu bispo, está, também ela, chamada à conversão missionária. Ela é o sujeito primário da evangelização, (…) é a Igreja encarnada num espaço concreto, dotada de todos os meios de salvação dados por Cristo, mas com um rosto local. A sua alegria de comunicar Jesus Cristo exprime-se tanto na sua preocupação por anunciá-lo noutros lugares mais necessitados, como numa constante saída para as periferias do seu território ou para novos âmbitos socioculturais. Procura estar presente onde fazem mais falta a luz e a vida do Ressuscitado» (EG, 30).

            Este impulso missionário é fundamental para uma a renovação de toda a Igreja e desta diocese em concreto, para que esteja à altura das exigências deste tempo. As suas implicações estão bem sintetizadas no título da carta pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa – Todos, tudo e sempre em missão. Para que este objetivo se concretize requer-se antes de mais que cada cristão batizado se reconheça como «discípulo missionário», alguém que caminha com Cristo e cuja vida irradia e testemunha a alegria da fé. Exige-se ainda que nos vários âmbitos da pastoral (catequese, liturgia, caridade…) se tome consciência de que todos estão implicados na missão da Igreja e que todas as iniciativas e propostas a nível de Diocese, Arciprestado, Paróquia ou outro, deverão ter sempre uma lógica missionária, isto é, de abertura, de saída, proporcionando a todos um verdadeiro encontro com Cristo.

            2º Um outro facto marcante do novo ano pastoral será o da canonização de Frei Bartolomeu dos Mártires que ocorrerá no dia 10 de novembro. A grande importância deste acontecimento para a diocese advém do facto de ele ter sido Arcebispo de Braga a que pertencia então o território transmontano. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590) destacou-se como uma das vozes mais sábias no Concílio de Trento (1543-1563), num momento difícil da história devido à Reforma Protestante, e sobretudo pela sua figura de pastor à frente da sua diocese, com especial relevo para as visitas pastorais que o levaram a percorrer muitas das nossas terras. Ficou ainda célebre pela sua ação inovadora no que respeita à formação do clero e pelo seu empenho em causas sociais. Por estas razões, trata-se de uma figura ímpar na história da igreja portuguesa e, a partir de agora, reconhecida a santidade da sua vida, é proposto a toda a Igreja universal como modelo de cristão, pastor e santo.

            Um acontecimento desta natureza deve suscitar a vontade na participação na canonização e o maior interesse no conhecimento e divulgação da sua vida e obra, bem como na valorização ou descoberta de vestígios e memórias da sua passagem pelas nossas comunidades. Por outro lado, a partir da canonização, Frei Bartolomeu dos Mártires, é um santo que deve merecer uma especial veneração por parte dos fiéis, pelo que é de incentivar a devoção pessoal e valorizar a sua festa litúrgica anual.

            Este grande e feliz acontecimento deve constituir um forte e vigoroso apelo para todos nós, membros desta igreja diocesana, a caminharmos para a santidade. Como lembra o Papa Francisco na sua exortação Gaudete et Exsultate, sobre a santidade no mundo atual, «para ser santo não é necessário ser bispo, sacerdote, religioso ou religiosa. (…) Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um já se encontra» (GE, 14). Desde a vida quotidiana até às várias tarefas e serviços eclesiais, toda a vida do cristão deve estar impregnada pelo espírito de santidade porque cumprir a sua missão é caminho de santificação.

            3º Durante o ano pastoral vamos ter a preocupação de aplicar as conclusões dos dois últimos Sínodos dos Bispos, o de 2014-2015 sobre a família e o de 2018 sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional, partindo das indicações dadas pelo Papa Francisco nas exortações pós-sinodais, Amoris Laetitia e Christus Vivit. No caso da família as perspetivas pastorais serão a de anunciar o Evangelho da família e revalorizar o sacramento do matrimónio; cuidar da preparação e celebração do sacramento; acompanhar os casais nos primeiros anos de vida matrimonial. Acerca das situações ditas “irreguladores”, como é o caso dos recasados, urge alterar as mentalidades no sentido de os acompanhar, discernir e integrar, porque «a Igreja deve acompanhar com atenção e solicitude os seus filhos mais frágeis marcados pelo amor ferido e extraviado, dando-lhes nova confiança e esperança, como a luz do farol num porto ou de uma tocha acesa no meio do povo para iluminar aqueles que perderam a rota ou estão no meio da tempestade» (AL, 291).

            Os jovens representarão uma prioridade da vida da diocese nos próximos anos. Eles constituem uma bênção para o mundo e são parte importante da vida da Igreja que precisa da sua presença, do seu entusiasmo e criatividade. Mais do que futuro, eles são já o presente, pelo que é necessário reconhecer o seu lugar e caminhar com todos, jovens e adolescentes, mais ligados à Igreja ou mais afastados. Ao Secretariado Diocesano da Juventude, aos grupos e movimentos, às paróquias e comunidades religiosas, escolas e colégios, peço uma especial aposta na pastoral com os jovens, numa dinâmica que terá como horizonte a realização das Jornadas Mundiais da Juventude de 2022.

            4º Este ano pastoral será ainda dedicado a preparar a celebração do centenário da diocese que ocorrerá em Abril de 2022. A sensibilização e motivação da diocese para esta efeméride tão significativa terá como primeiro passo a auscultação das sugestões e contributos que ajudem a que no passo seguinte os órgãos de corresponsabilidade e coordenação pastoral (Conselho Presbiteral, Conselho Diocesano de Pastoral) elaborem o programa mais adequado. Será um momento privilegiado para revisitar tudo o que foi feito durante este último século mas desejaria que fosse também ocasião para refletir e lançar as bases da Igreja que queremos ser neste século XXI.

            A concluir, convido-vos a trabalharmos todos para uma igreja diocesana com um rosto novo, acolhedor, alegre e próximo e com um estilo novo, mais evangélico, sinodal e dialogante. Para todos, para as vossas famílias, paróquias e comunidades, para os vossos trabalhos e iniciativas pastorais e sobretudo para os doentes, pobres ou frágeis, invoco as bênçãos de Deus e a intercessão de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira da diocese e de S. Bartolomeu dos Mártires.

1 de Outubro de 2019, Festa litúrgica de Santa Teresa do Menino Jesus,

+António Augusto de Oliveira Azevedo

Bispo de Vila Real