Homilia – Instituições no Ministério de Acólito

A parábola que escutamos no evangelho deste domingo, apresenta-nos uma síntese ou releitura da história da salvação feita pelo próprio Jesus. Usando uma vez mais a metáfora da vinha, Ele começa por acentuar o gesto fundacional do proprietário que não só a planta, como cuida dela com todo o esmero. Da mesma forma, a eleição que Deus faz de um povo para ser sinal e instrumento da sua salvação no meio da humanidade, é uma expressão maior da sua misericórdia. Porém as expectativas daquele senhor saem defraudadas, a sua paixão pela vinha não é correspondida com frutos, antes os seus enviados são maltratados. Aqueles vinhateiros em quem ele tinha confiado não foram capazes de pôr a vinha a produzir, como até, com grande deslealdade tomaram posse dela.

Desta forma, Jesus expressa claramente a desilusão de Deus face aos fracos resultados evidenciados pelo seu povo. Mas, superando ímpetos de révanche, Deus, o verdadeiro senhor da vinha, não desiste e faz da morte de seu Filho um autêntico recomeço. Apesar de rejeitado e morto, Ele será a pedra angular de um povo novo, capaz de produzir frutos. Esta referência é de maior importância para nós, cristãos deste tempo, porque reforça a nossa responsabilidade de sermos Povo de Deus e de assumirmos plenamente uma missão que seja produtiva na história de hoje.

Para isso precisamos de cuidar mais desta vinha, isto é, da Igreja, de forma a criar condições para que não cai na rotina, cansaço ou esterilidade. Pelo contrário, contagiados pela paixão do Senhor da vinha, impõe-se um renovado compromisso, a começar, desde logo, pelo cuidar das raízes. Neste ano pastoral somos convidados a aprofundar essas raízes, a começar pelas raízes da nossa fé. Uma fé que nasceu e cresceu numa família ou numa comunidade cristã; uma fé que precisa de estender as raízes para se alimentar nas fontes insubstituíveis que são a Palavra de Deus e os sacramentos. Só desta forma poderemos dar aqueles frutos que o Senhor espera de nós. Há muito trabalho a fazer…

Tal como sucede com o trabalho na vinha ou noutras atividades, o empenhamento na missão da Igreja para ser eficaz e dar bons frutos, carece de algo mais do que o mero voluntarismo. Exige sentido de unidade e de comunhão, na consciência de que a missão é a mesma: o anúncio e testemunho do evangelho da salvação de Jesus Cristo. Trabalhar em comunhão com Ele e em unidade com os irmãos é indispensável. Fratelli tutti, título da encíclica que hoje o Papa Francisco nos deu, mais do que um lema, deve corresponder ao sentir de quem acredita que não está só e não trabalha isolado. A raiz desta fraternidade humana, para que seja autêntica, está no reconhecimento de uma origem comum, o amor paterno de Deus.

Por outro lado, importa também hoje, estarmos advertidos para não repetirmos o erro dos vinhateiros do Evangelho que se julgavam donos da vinha. Na Igreja todos são servidores. Aqueles que o Senhor chamou e em quem depositou a sua confiança, estão ao serviço, na diversidade de ministérios, funções e responsabilidades, da única e mesma missão. Nos vários lugares, cargos ou funções, nas comunidades ou organismos, não há donos ou senhores, mas apenas servos, sempre fiéis, leais e dedicados. Estes, mais do que o interesse próprio, devem zelar pelos interesses do Senhor.

A estes dois requisitos (comunhão e espírito de serviço) necessários para que o nosso trabalho nesta vinha seja produtivo, poderíamos acrescentar ainda dois que São Paulo nos apontava: o discernimento e a confiança. Como escrevia o apóstolo saibamos escolher o que é bom, justo, amável e de boa reputação. Mergulhados num mundo complexo e cheio de propostas, a atitude própria do cristão não será a da fuga ou isolamento, nem a de aceitar acriticamente tudo o mundo nos vende. É necessário um espírito de abertura e diálogo, feito com espírito crítico e um discernimento para acolher o que nos pode ser útil e para dar aquilo que o mundo tanto carece, a vida e a esperança que Deus concede por seu filho, Jesus Cristo. Em união com Ele, reforçada na oração, encontraremos a paz, o ânimo e a serenidade tão importantes em tempos de dificuldade e incerteza como são estes que vivemos.

Nesta celebração vão ser instituídos no ministério de acólito três jovens seminaristas da nossa diocese: o Daniel, o João Paulo e o Miguel. É um momento rico e marcante para toda a diocese, para o seminário, para as famílias e comunidades. Mas é também um momento significativo nas suas vidas, uma etapa importante no percurso para a ordenação sacerdotal.

Tendo em conta a mensagem da Palavra de Deus e a natureza deste ministério que se destina acima de tudo ao serviço do altar, gostaria que esta instituição, para os próprios e para todos, constituísse um renovado convite ao serviço do Senhor. Serviço ao altar em que Ele nos concede os sagrados dons para nossa salvação e um serviço que se alarga e concretiza no cuidado dos irmãos, sobretudo dos pobres, nos quais se manifesta também a presença do Senhor. Servir com alegria, dedicação e entrega plena do que somos e temos.

Este é também um passo num caminho de discernimento e compromisso com a vontade de Deus. Um caminho gradual, em que a abertura da consciência ao chamamento do Senhor conduz a uma resposta livre e corajosa da pessoa.

Finalmente, este é também um sinal muito significativo de compromisso com a missão da Igreja. Mais do um objetivo geral ou um desejo teórico, ela requer decisões efetivas e ações concretas. Por isso, a partir de hoje, ides ficar mais habilitados e prontos a servir melhor as comunidades cristãs em que estais inseridos e dessa forma podeis contribuir para que esta Igreja diocesana, quase centenária, cumpra melhor a sua missão e esta vinha do Senhor dê mais e melhores frutos.

Vila Real, 4 de outubro de 2020

+António Augusto de Oliveira Azevedo