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Homilia – Epifania do Senhor

        Na solenidade da Epifania que hoje celebramos resplandece toda a luz do Natal. Ao ser visitado pelos Reis Magos no presépio de Belém, Jesus manifesta-se como a luz para todas as nações. Como explicava São Paulo, é a revelação do mistério de que os gentios pertencem ao mesmo corpo, à mesma herança dos judeus. A luz que nasce em Belém é de facto para todos os povos, a salvação que promete destina-se a todos, ultrapassando barreiras de raças, povos e culturas.

        O horizonte universal da fé cristã evidenciado logo no presépio, será confirmado plenamente na Páscoa e no Pentecostes. Com o dom do seu Filho, Deus quis e quer iluminar e guiar a todos, fazer de todos seus filhos e a todos salvar. Por isso continuar a viver em espírito natalício significa deixar-se iluminar pela luz do presépio, partilhá-la com tantos à nossa volta, mergulhados nas trevas do sofrimento ou do desânimo e a levá-la a tantos ambientes e lugares (famílias, instituições, empresas e outros) onde a luz da fé e o espírito fraterno ainda estão ausentes. O mundo hoje precisa desta luz, precisa que não fique apenas dentro de nós ou nas igrejas, mas brilhe mais forte para todos.

        O evangelho de hoje mostra-nos que o nascimento de Jesus, o começar a brilhar desta luz divina na história é apenas o primeiro passo. Indispensável é o modo como cada um, naquele tempo como hoje, reage à sua presença. Depois do acolhimento pleno de fé de Maria e José, após a visita simples e alegre dos pastores, o relato do evangelho apresenta-nos a caminho de uns magos vindos do Oriente, verdadeiro modelo de tantos que buscam a luz.

        Os magos distinguiram-se porque foram capazes de olhar as estrelas, procurar algo acima do comum da vida, e por terem tido a coragem de seguir uma estrela especial. Na vida muitas vezes é decisivo o ser capaz de ir atrás de um sonho, ousar pesquisar o que ainda não conhecemos. É uma atitude sábia, corajosa e própria de quem tem fé e ousa, como Abraão, seguir os sinais de Deus. Como Igreja precisamos de valorizar todos aqueles que buscam e se interrogam sobre a vida e sobre a fé. Pessoas da ciência ou da cultura, jovens que andam à procura do essencial da vida ou adultos ainda insatisfeitos com o que a vida já lhes deu. Sejamos capazes de os acompanhar no caminho que os conduza ao encontro com Cristo.

        Em contraste com aqueles gentios que guiados por uma estrela chegam a Belém, o evangelho refere a atitude de Herodes e dos príncipes dos sacerdotes e escribas. Estes conheciam as escrituras e sabiam que o Messias nasceria em Belém, mas ficaram inamovíveis nos seus lugares. Herodes aparenta algum interesse pela notícia do nascimento do menino, mas a sua atitude revela apenas cinismo e hipocrisia, próprios de quem estava apenas preocupado com o seu poder e em controlar ou eliminar quem o pusesse em causa.

        A luz que nasceu para todos em Belém foi recusada ou vista com indiferença por alguns. Da mesma forma, importa que hoje, os crentes, os que conhecem a escritura não fiquem passivos nos seus hábitos, resignados ao cumprimento das rotinas, amedrontados diante da novidade e dos desafios do mundo. Importa também que todos os âmbitos de poder não se deixem enquistar, buscando apenas o poder pelo poder ou a sua perpetuação, mas se abram àquela luz que desafia a uma maior transparência e espírito de serviço na busca do bem comum.

        Como os Reis Magos viemos hoje até junto de Jesus, não só no presépio, mas presente e vivo na eucaristia. Viemos adorá-lo como nosso Deus e Salvador e somos convidados a oferecer-lhe o dom maior das nossas vidas, com as sua riquezas e fragilidades. Deixemos que a luz de vida e salvação que Ele trouxe ao mundo brilhe mais forte nos nossos corações para depois seguirmos por outro caminho. Um caminho feito com mais alegria e ânimo, feito com mais consciência e responsabilidade pela missão de levar a partilhar a luz da fé com aqueles que à nossa volta a buscam ou precisam dela.

Vila Real, 3 de janeiro de 2021

+António Augusto Azevedo