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Homilia – Dia da Diocese

        O Dia da Diocese é por natureza momento especial de encontro de todos nós que constituímos a Igreja de Vila Real: bispo, padres e diáconos, religiosos e religiosas, leigos das 264 paróquias e arciprestados, membros dos vários movimentos, associações ou instituições eclesiais. Este ano é o encontro possível por causa da pandemia, mas com um forte cariz representativo e simbólico.

        Este dia é ocasião de ação de graças por aquilo que somos e por aquilo que fizemos ao longo de um ano pastoral tão difícil que exigiu a todos e cada um esforço, capacidade de adaptação e sobretudo muita fé e paciência. Convosco e por vós, quero dar graças a Deus pelo trabalho que foi possível realizar e sobretudo porque Ele nos protegeu e ajudou a crescer na fé.

        Este ano preparatório do centenário da diocese tem como lema: Aprofundar as raízes. Nele inspirado, gostaria de evocar todos aqueles que serviram a diocese. Tantos foram os clérigos e leigos que acreditaram e falaram da fé e a testemunharam com o exemplo de dedicação das suas vidas. Eles são as verdadeiras raízes que tornaram possível que esta Igreja se fosse construindo até chegar a ser esta árvore bela que hoje é. Por todos eles estamos gratos a Deus. Eles foram as raízes que nos levam até Cristo, a fonte da verdadeira vida.

        O Evangelho deste domingo mostra-nos como Jesus, na sua incansável missão de anúncio e testemunho do Reino foi vítima de críticas e incompreensões. Por inveja do seu sucesso, por ignorância, para afirmar o seu poder ou outra razão, aqueles escribas vieram de Jerusalém dispostos a desacreditar Jesus e distorcer as suas reais intenções. Até os mais próximos e familiares tiveram dificuldade em entender o mistério da sua pessoa e a novidade da mensagem. Todos os que estamos comprometidos na vida da Igreja, clérigos ou leigos, não estamos isentos de experimentar dificuldades similares. Por isso precisamos de cultivar a coragem, o desassombro e a sabedoria que Jesus manifestou para superar aquela oposição.  Acima de tudo, confiemos na força e na ação do Espírito Santo.

        Inspirado pelo mesmo Espírito e à luz das leituras bíblicas, gostaria de deixar uma mensagem com alguns desafios:

Reconstruir as comunidades. Á medida que a pandemia se for dissipando, precisamos de um forte impulso de reativação da vida das nossas comunidades cristãs. Não basta voltar ao que fazíamos antes, porque estamos, a começar pelos meios mais urbanos, num processo inexorável de transição de um cristianismo sociológico para um cristianismo de convicção. Esta passagem, por vezes geradora de tensões, constitui o grande desafio pastoral de hoje.

A resposta mais conveniente a esta desafio há de partir da consciência de que Jesus Cristo nos constituiu seus irmãos e suas irmãs. Pelo batismo somos família de crentes, comunidade reunida em volta de Jesus e animada pelo Espírito Santo. Em todas as paróquias, movimentos e grupos cristãos, nos diversos organismos e instituições eclesiais é indispensável acentuar o espírito familiar e o clima fraterno próprios de um cristianismo autêntico.

No evangelho Jesus explicava que «um reino dividido não se pode aguentar». A unidade é por isso um desígnio fundamental para a Igreja, pelo que urge superar divisões, interesses egoístas ou lógicas de grupo ou capelinha. Precisamos de crescer como Igreja-comunhão, aprofundando a dimensão ministerial e exercitando a sinodalidade.

Crescer espiritualmente. Em tempo de mudança importa sublinhar que a mais importante não é a das estruturas, mas a das pessoas; não é a exterior mas a interior. São Paulo escrevia na Carta aos Coríntios: «Não desanimamos. Ainda que o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia». Na longa provação desta pandemia, muitas pessoas experimentaram um grande crescimento espiritual. De facto, no meio das aflições da vida em que sentimos as fragilidades e reconhecemos as limitações humanas, podemos tornar-nos mais fortes espiritualmente. Os próximos tempos que serão ainda de dificuldades várias, sejam encarados também como oportunidade de profunda renovação espiritual das pessoas, famílias e comunidades.

Cultivar a esperança. A atitude cristã é de fidelidade a Jesus Cristo, buscando cumprir a sua palavra que impele sempre ao bem; por isso é uma atitude de esperança. O relato do livro do Génesis apresentava o quadro matricial do homem que, por causa do pecado, abandona o paraíso, se vergonha da sua nudez e é incapaz de assumir a culpa. Mas uma mensagem importante do texto é que a luta contra o mal é constante e permanente e a última palavra será da descendência da mulher que vencerá o mal. A imagem da nossa padroeira, a Senhora da Conceição, ilustra bem esta promessa. Jesus Cristo ressuscitado, vencedor do pecado e da morte, é a nossa esperança. Nos tempos que vivemos é necessário cultivar a esperança a partir de um compromisso inequívoco com o bem.

        A esperança é precisa porque, além das crises pandémica, económica e outras, talvez a mais grave seja a crise moral. Acentuam-se sinais de depreciação dos padrões éticos, de subordinação dos princípios aos interesses, de deslegitimação de valores, de confusão entre o bem e o mal. A superação desta crise é possível, mas supõe que nos entendamos acerca dos valores básicos e comuns, alguns dos quais o cristianismo sempre defendeu, como o do reconhecimento da vida e da dignidade da pessoa, do respeito do outro como nosso irmão e igual, e o cuidar do planeta como casa comum. Apesar de tudo há sinais promissores, como um certo despertar espiritual por parte de muitos, sobretudo jovens, uma crescente consciência ecológica, uma maior exigência ética por parte de pessoas e instituições e de responsabilidade social por parte de algumas empresas. Como cristãos, cultivemos a esperança num compromisso sério de promoção do bem que está ao nosso alcance, lutando também contra todas as formas de maldade.

        Dia da Diocese é dia de encontro e ação de graças, ocasião para celebrar a nossa fé, consolidar a nossa comunhão e animar a nossa esperança. Que Deus, Pai de misericórdia e bondade continue a abençoar a Igreja de Vila Real e todos os seus membros. Por intercessão de Nossa Senhora da Conceição, Ele conceda a esta diocese os dons do Espírito para que seja fiel no cumprimento da missão que recebeu. AMEN.

+António Augusto de Oliveira Azevedo