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Homilia – Celebração do Acolhimento da Luz da Paz de Belém

Domingo III do Advento

Esta celebração que assinala o acolhimento da Luz da Paz de Belém em Portugal e a sua partilha por todas as dioceses do país traduz bem o que significa a autêntica vivência cristã do Natal. Ele é de facto a grande festa da luz, a luz verdadeira, nascida em Belém para iluminar a todos.

O Natal deste ano de 2020 vai acontecer num inédito e difícil contexto de pandemia que trouxe angústia a muitos corações e sofrimento a muitas famílias. Neste quadro sombrio é ainda mais necessário partilhar esta luz que veio de Belém para que ilumine mais vidas, aqueça mais lares e leve esperança a mais corações.

O Evangelho deste 3º Domingo do Advento apresenta-nos João Batista como «aquele que veio dar testemunho da luz». Por isso pode ser o modelo que nos ensina o modo mais eficaz de partilhar esta luz. Ela é mais do que uma simples chama, é um sinal que aponta uma vida, uma promessa de salvação que se chama Jesus que nasceu em Belém, anunciou um Reino novo, morreu e ressuscitou, e por isso continua a inundar a história com a sua luz.

João foi o grande profeta, aquele que preparou a vinda do Emanuel e teve a felicidade de ver cumprido o seu anúncio, batizando Jesus no rio Jordão. Foi sobretudo um profeta fiel e uma testemunha autêntica daquela luz nova que chegava. Uma autenticidade comprovada pela sua atitude de corajosa e consciência lúcida. Ele não teve medo nem se deixou intimidar por aqueles enviados dos poderosos que o interrogaram em tom inquisitorial. Manifestou até uma consciência muito esclarecida sobre a sua identidade e a sua missão.

Este dia em que nos reunimos para acolher e levar a Luz de Belém é oportunidade para nos assumirmos como testemunhas da luz com a ousadia de João Batista. Num tempo em que abundam notícias falsas, mensagens fraudulentas e testemunhos cheios de duplicidade, não tenhamos medo de acolher a luz verdadeira e  dar testemunho dela  a tantos à nossa volta que a esperam ou precisam dela para iluminar as trevas em que vivem mergulhados. Partilhar esta luz é um gesto fraterno, próprio de quem sabe que a luz não é para guardar ou esconder. Precisamos hoje de crentes com disponibilidade e coragem para sair ao encontro dos outros, partilhando esta luz, de crentes que não recuam diante de questões insidiosas ou cedem às insinuações de que em certas situações será conveniente ou cómodo pôr a fé entre parêntesis. Felizmente começam a surgir sinais promissores na nova geração, de alguns jovens que assumem publicamente a sua fé com alegria e desassombro.

A Luz de Belém antes de ser levada e partilhada deve iluminar interiormente cada um de nós. Só com a sua ajuda podemos responder com mais clarividência às perguntas colocadas a João Batista: «Quem és tu?…Porque fazes isto?». Essas questões são decisivas quando se é mais jovem, em fase de estruturação da personalidade e continuam a ser pertinentes ao longo da vida. Neste aspeto, o Escutismo é um relevante espaço formativo porque favorece o crescimento dos mais jovens na descoberta da sua verdadeira identidade e da sua missão.

Aquelas e outras perguntas incontornáveis só encontram resposta satisfatória e duradoura quando interiormente nos deixamos iluminar por Jesus. Só à sua luz reconhecemos mais plenamente quem somos, isto é o nosso caráter único e original de criaturas amadas por Deus. Só à sua luz percebemos que temos uma missão pessoal, um lugar insubstituível na construção da sociedade, um contributo imprescindível no crescimento da comunidade cristã.  Iluminados por Ele tomamos uma consciência mais viva de que temos uma responsabilidade inalienável na proteção da vida e da criação, desta casa comum que nos foi dada para cuidarmos e deixarmos habitável para as próximas gerações. Nesse sentido faço eco do apelo do Papa Francisco dirigido aos mais jovens e a todos:«Eu sou uma missão nesta terra e por isso estou neste mundo» (CV,254).

A luz de Belém ilumina-nos por dentro e queremos que brilhe também em tantas vidas à nossa volta. De facto há tanta gente desencontrada de si própria e dos outros, esquecida do seu valor, desapontada com a sociedade, gente imersa nas sombras do desânimo, carente de sentido, de afetos e de horizontes. Precisam que lhes levemos esta luz de esperança. Há tantas famílias marcadas por dificuldades de ordem material, pelo sofrimento ou doença, por problemas de relacionamento entre os seus membros. Precisam que lhes levemos esta luz de paz. Não faltam comunidades ou grupos mergulhados na rotina e no conformismo, empresas, instituições públicas ou privadas da nossa sociedade onde reina a divisão ou a discórdia. Precisam que lhes levemos esta luz de fraternidade.

Os efeitos que a presença desta luz podem suscitar em tantas vidas são sempre surpreendentes e ultrapassam o que possamos imaginar. De modo especial neste Natal que para muitos será celebrado em condições difíceis, a presença da Luz de Belém levará mais calor e mais paz. Aquela paz que experimentam os que descobrem nesta chama o sinal de um Deus que é sempre presença que conforta e apazigua. Mas a Luz de Belém é também geradora da verdadeira alegria. Não a alegria efémera de uma festa, mas a alegria dos corações agradecidos e exultantes pela presença do Senhor, fonte de liberdade e vida nova. Esta luz pode ainda significar para muitos que a acolherem a possibilidade da esperança. Uma esperança que se alicerça na certeza de que iluminados por Jesus Cristo podem encontrar caminhos novos.

Esta iniciativa do CNE confirma a verdadeira natureza desta associação como escola de fraternidade e de valores, como espaço de crescimento em humanidade e na fé. Que a Luz da Paz de Belém deste ano, além de animar o Natal de muitas pessoas, dar mais brilho às nossas casas, contribua também para que os membros dos muitos agrupamentos vivam mais intensamente o verdadeiro espírito desta festa cristã.

13 de dezembro de 2020

+António Augusto de Oliveira Azevedo